Andréa del Fuego


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Mais vale as mãos livres, solte os dois passarinhos.



Rita Hayworth por Edward Quinn

Escrito por Andréa del Fuego às 11:52 AM
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Banana

Banana embrulhada em jornal conserva o gás etileno e fica boa em dois dias. Embrulhei o Celso em jornal e o gás veio outro, ele não amadureceu e manchou o papel com suor. Celso tem medo do transporte a caminho da feira, de cair na Marginal Tietê numa batida com algum verdureiro. Já tombamos num cebolão da zona norte, as bananas maduras ficaram com hematoma. Penduro o preço no varal e espero, nem preciso gritar pra vender, da banca saem dúzias de nanica, mas Celso é a prata da casa. Se o freguês pechinchar, leva ainda verde o meu japonês.



foto: Louis Stettner

miniconto publicado em janeiro na Revista da Folha de São Paulo

Escrito por Andréa del Fuego às 12:09 PM
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Não consigo largar a câmera fotográfica, para não deixar esse blog tão pesado, vou postar a maioria das imagens no Flickr, vem comigo.




Escrito por Andréa del Fuego às 08:50 AM
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Esqueci o nome, lembro o rosto. Os olhos refogados, perdendo água com o calor do sol, um Fusca verde e outro ao lado, arredondados, com o pára-brisa desligado. Homem dentro de um Fusca simula normalidade. Parado, acelera o fluxo dos portes maiores, melhor sair da frente. A multa é pelo atraso, caso outro homem se pergunte qual leva-e-traz é mais rápido. Dois Fuscas, dois homens. Porta-luvas com o jornal de terça, recortados os títulos, inspetor Bolinha. Porsche de trinta e dois cavalos, um procurando o outro.



Alex Majoli


miniconto do livro Engano seu

Escrito por Andréa del Fuego às 08:54 AM
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piaf, o coração e os amigos

Como voltar às tarefas cotidianas depois de assistir à Piaf? Estou com dificuldades em assimilar o filme, a dor dessa francesa que me lembra minha mãe. Nada no físico as une, mas algo na expressão do rosto. Piaf não se arrepende de nada porque sentiu tudo. Minha mãe, se sentiu, não me contou, não cantou e nem se anestesiou, pelo menos até agora. Tenho medo do que sinto, Piaf também teve, medo é a primeira coisa que eclode. Quando ela soube da morte de Marcel e com braços erguidos corre pela casa chamando seu homem e esse corredor a despeja no palco onde canta, chora, rasga o que ainda é inteiro... eu volto a ser frasco pequeno para caber o peito.

Ontem vendo a mais nova minissérie de Maria Adelaide Amaral, a Piaf geme outra vez. Recordar os afetos é vivê-los outra vez? Que inferno! Prove que um sentimento tem fim e eu me acalmarei. Em cerimônia fechada, vou circuncidar o coração.

Escrito por Andréa del Fuego às 02:26 PM
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legere - ler é colher as plantas

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Roberto Bolaño - Os detetives selvagens

A estrutura do livro é dividida em três partes, a primeira é o diário de um jovem poeta mexicano, ainda adolescente, que se inicia na poesia e na vida literária mexicana. Ele se envolve com Ulises Lima e Arturo Belano, ou melhor, com os real-visceralistas, movimento literário que a dupla resgata dos anos 20, esse inaugurado por uma obscura poeta mexicana chamada Cesária Tinajero (cuja obra é, na minha opinião, finalmente a conquista das artes plásticas pela poesia). A segunda parte é um documentário que faria Eduardo Coutinho parecer um iniciante, são inúmeros relatos de figuras que passam pela vida de Lima e Belano: namoradas, editores, críticos, amigos e inimigos. Os depoimentos vão de 1976 a 1996, entrecortados por um relato de 1976 onde se narra uma noite entre um conhecido de Cesária, Lima e Belano. Chato? Chato é o jeito que encontrei para revelar nada sobre a trama. A terceira parte é a continuação da primeira, ou seja, do diário do poeta García Madero, nela se esclarece a origem da segunda e maior parte do romance, onde a linguagem é jazzística, onde fica o encefalograma cheio de penhascos do volume de 622 páginas. De tão bom o livro, cada vez que eu saía da leitura para dar conta de esticar as pernas e ir fazer xixi, sentia uma vertigem como se eu estivesse em movimento enquanto lia. Bolaño é tudo o que eu precisava, conheci tamanho prazer apenas com Lolita de Nabokov. Com os personagens Belano e Lima passei por Viena, África, Paris, México, escritores, duelos, literatura, fome, camas, porres, uma úlcera e outras fronteiras. Tenho saudades, foi duro fechar o livro.

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Rodrigo Fresán - Jardins de Kensington

É assustador, tanto pelos ensaios que ele tão bem consegue incluir na trama, quanto pelo fluxo pop. O narrador é um autor de sucesso de livros infanto-juvenis, Peter Hook, ele é filho dos anos 60 e da “lisergia”, e avalia sua carreira obsediando a vida e a obra de James Barrie, autor de Peter Pan. Rodrigo Fresán prova por A + B que todo escritor é uma criança que não consegue crescer, a quem não foi dada a chance de largar a praça infantil, fisicamente vivida por tão pouco tempo e abandonada assim que nos acostumamos a ela. O capítulo ‘O Personagem’ é um livro à parte. A leitura fica ainda melhor se você ler antes uma boa tradução de Peter Pan, de James Barrie, fonte de toda a inspiração desse romance mais sombrio e vampiro que o próprio Peter Pan. O autor tem insights geniais durante a trama sem por isso se envaidecer e largar mão da história, o autor não perde o leme.

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Juan Carlos Onetti - O Estaleiro

Só digo uma coisa, o romance de Onetti é escrito em terceira pessoa, mas nunca li um narrador (em terceira) tão próximo de um personagem como ele conseguiu, é coisa assombrosa, o que o autor faria na primeira pessoa eu tenho medo de saber. Um homem, Larsen, tenta retomar sua vida num estaleiro falido em meio a tentativas amorosas sem sucesso, amizades frustradas onde cada mancha de ferrugem e umidade é descrita. Num lugar onde não se faz mais embarcações, este homem de meia-idade busca um transporte ligeiro, mas nem tanto, que carregue seu cansaço. Onetti é conciso e vertical, ou seja, as coisas não acontecem, as coisas estão debaixo do seu nariz e como você não pode olhar pra baixo sozinho, o autor as sopra na sua cara.

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Jorge Luis Borges - O livro dos seres imaginários

Praticamente um tarô. Uma compilação de seres inventados e devidamente organizados pelo mago. Você pode abrir em qualquer página e tirar o ser do dia, o destino da hora próxima. Esse fica na cabeceira, estou me orientando por esses arcanos.

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William Beckford - Vathek

Um Oscar Wild mais deprimido, sem serotonina nenhuma, o autor, não o livro. Uma novela gótica das boas e que custa 6 reais pela ótima L&PM em qualquer banca de jornal. Um sultão curioso, Vathek, se sente impelido a conhecer o Palácio do Fogo Subterrâneo. Sua mãe, uma grega culta e iniciada nas artes infernais, o ajuda a alcançar o lazarento. O melhor do livro são as tendas que se armam pelas viagens, a comitiva, os jardins odoríferos, as madeiras de aloés, os damascos, os prazeres do sultanato, é pra se embriagar.

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Dalton Trevisan - A Gorda do Tiki Bar

Também por 6 reais pela L&PM. Impagável! O conto que dá título ao livro é superior a toda obra de Nelson Rodrigues e não me amole. Ok, menos a Valsa nº6, o melhor texto do Nelson.

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Raduan Nassar - Lavoura Arcaica

Esse é aquele livro que quase não respiro só de ler o título, Lavoura Arcaica é uma sentença. A lavoura é para quem tem braços, a lavoura é alheia à colheita, tanto faz se ela vier, o homem lavra só pra ser iniciado à terra. A repetição dos dias, a paixão entre irmãos, o vinho, a latência rural que eu tanto cortejo. Raduan inicia todo leitor a procurar seu campo de espera, só resta esperar que os botões rebentem, que as barrigas das grávidas rebentem, e que a terra coma sempre um para dar lugar a outro, a sombra ancestral sempre ocupada por nova carne. Raduan é um monstro literário! Uvas aos seus pés, grande autor!

Escrito por Andréa del Fuego às 02:18 PM
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cozza freire

Xangô mandou avisar: o show Cantos Negreiros convidou alguns poetas para os trabalhos. O primeiro babalorixá é Luiz Roberto Guedes (dia 15). Depois benzem Daniel Minchoni & Rui Mascarenhas (16), Sérgio Vaz (22) e Arruda & Eunice Arruda (23). O literomusical será na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, endereço e tudo mais, aqui.

Escrito por Andréa del Fuego às 01:16 PM
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o começo

Eu não ia postar nada sobre as férias, mas não consigo. Num post abaixo, conto meu duelo com um gato no cemitério da Recoleta. Ele ou eu numa rua, um momento tenso para depois cairmos os dois em plena amizade. Aconteceu de novo, dessa vez com uma iguana venezuelana, a Quenga.

Eu estava saindo de casa e dei de cara com ela, a cumprimentei: Oi, Quenga!



Quenga mora no sítio onde eu estava, já sabia dela, mas não a tinha visto de tão perto.



Ela me encarou e começou a vir pra cima, ameaçando subir a escada onde eu estava paralizada.



Tive que recuar.



E rápido.



“Tá boa, santa?”



Voltei para a cozinha e procurei uma banana e um lança-chamas.



Achei uma nanica e a servi, Quenga comeu.



E me esnobou, dizendo que eu era uma visitante e que soubesse tratá-la melhor, uma digna anfitriã.



De perto ela hipnotiza.



Eu desisti de sair e fiquei horas tentando convencê-la de que podia me visitar quando quisesse, inclusive em São Paulo.



Sua pele de cobra, as mãos de velha gorda e o rabo de satanás foram me tranqüilizando, eu também tenho rabo disse à ela, só que ninguém vê.



A iguana escalou uma pilastra, se aninhou numa parreira, ficou olhando minha dignidade lá de cima.



E tratou de me esquecer.



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Eu não a esquecerei tão cedo, fui obrigada a me desviar de um livro para começar outro, com ela entre os personagens.

Escrito por Andréa del Fuego às 11:30 AM
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