Andréa del Fuego


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Cheiro tem sabor?



foto: Brassaï

Escrito por Andréa del Fuego às 05:21 PM
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Culto

Quando meu pai ficava arisco, minha mãe fazia umas receitinhas.

Num papel branco escrevia o nome dele e por cima o dela, sete vezes. O papel ia sobre um pires e colava a vela com a cera derretida. Uma vez firme, derramava mel puro entorno.

Nunca interrompi o ritual com perguntas, a concentração dela explicava. Aquilo era sério. A parafina derretida ficava disforme feito graxa no asfalto quente. Importante é a chama, dizia.

Aceso o secreto pedido, via meu pai chegar do trabalho mais doce e aberto às conversações sobre regras do lar.

Meu irmão era um menino frágil pela bronquite. O peito nunca mais chiou depois de uma simpatia. Ela queimou alguma coisa não identificada até virar pó, enterrou aquilo na seara de uma benzedeira.

"Filha, se fizer com fé, tua criança nunca mais chia o peito".

O garoto nunca mais teve as mãos roxas pela falta de ar e o coração acelerado pelos remédios. Depois de adulto teve uma crise parecida, mas foi por causa do fim de um namoro.

Minha mãe não saía fazendo qualquer simpatia ou trabalho. Tinha que ter referência, corria atrás dos antecedentes nas reuniões da Tupperware ou o farmacêutico do bairro, que espírita, indicava um lugar ou outro à toda nação de mães naquela cidade da metalurgia (ABC).

Sorte ou ciência não reconhecida, as simpatias, trabalho-feito, sessão de descarrego e afins já salvaram muita gente da agonia. Mais pela fé do requerente que pelo prestador de serviços extraordinários.

Quando era criança, um velho benzedeiro tirou minhas tias da casa pra curar minha coqueluche persistente. Colocou um copo de água sobre minha cabeça e rezou de olhos fechados. Algumas bolhas de ar subiram até a borda do copo como se a tampa de minha cabeça fosse uma chapa quente de lanchonete. Horas depois sentia-me livre da tosse convulsiva e o desconforto abissal daquela enfermidade.

Minha mãe também freqüentava missas católicas, botou os filhos pra fazerem primeira comunhão, fomos batizados na bacia do Vaticano. Mas às sextas-feiras à noite, batucadas africanas e charutos nos entorpeciam fazendo-nos construir uma fé abrangente.

Nas tardes de quarta-feira, ainda menina, eu fazia um trio com uma amiga espírita e outra escoteira. Subíamos numa árvore, e sentadas nos galhos da copa, acreditávamos fazer contato com um amigo do além.

Desconfio que minha casa é exemplo da maioria brasileira: tolerante.

Mas percebo que muita gente ainda não usufrui desta liberdade religiosa como poderia, tem receio de assumir as vias paralelas, espera os ícones se pronunciarem e aí sim, assume costumes e hábitos. Espera permissão para o conhecimento de outros e mais símbolos.

"Não há na alma vontade que seja absoluta ou livre; mas a alma é determinada a querer isso ou aquilo por uma causa que é também determinada por outra, e essa outra por sua vez o é por outra, e assim ao infinito." - Ética Demonstrada à Maneira dos Geômetras - Spinoza




foto: Isabel Santana


(crônica publicada na extinta coluna Centrífuga no Bol)

Escrito por Andréa del Fuego às 12:32 PM
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Não posso atender agora.



foto: Eliot Siegel

Escrito por Andréa del Fuego às 05:22 PM
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"Sobre a linha que liga meus olhos ao horizonte, o primeiro plano oculta para sempre os outros, e, se lateralmente acredito ver os objetos escalonados, é que eles não se encobrem inteiramente: vejo-os portanto um fora do outro, segundo uma largura diferentemente calculada. Sempre se está aquém da profundidade, ou além. Jamais as coisas estão uma atrás da outra." - O Olho e o Espírito - Maurice Merleau-Ponty




foto: Peter Fetterman Gallery

Escrito por Andréa del Fuego às 10:29 AM
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Canastra Real

Catarina, viúva, oitenta anos, mora sozinha. Prédio antigo com vaga na garagem; foi no quarto andar que desceu as valises ao chegar da lua-de-mel. O namoro foi terno. Ele gostava de crianças, dos almoços de domingo, das tias falantes, os pratos e talheres sendo postos à mesa.

Com o primeiro e único filho, a alegria contagiou a casa. Mauro chegava da firma e corria pra abraçar a mulher. Antônio, o filho, era feliz por nada. Tanto fazia como tanto fizesse estava tudo bem pro rapaz forte e risonho.

O rio foi descendo a corredeira e os dois foram envelhecendo. Mauro se foi com um derrame aos oitenta e cinco. O velório caminhava sereno até a chegada de uma senhora desconhecida. Era menos fina que Catarina, sabia-se pelo bordado exagerado, embora preto. Chorava alto. Antônio tentou retirar a senhora, ela nem ouvia.

Dia seguinte, Catarina já não chorava mais. Todas às quintas, numa saleta em tom pastel e tapete felpudo, reuniam-se três amigas: Catarina, Elvécia e Glorinha em volta de uma mesa com jade incrustado. Elas não se separavam na juventude, reencontraram-se por ocasião da morte de Mauro, quando leram nos obituários o falecimento do distinto. Foram ao velório dar os pêsames à Catarina.

Glorinha embaralhava as cartas, Elvécia servia chá de jasmim, Catarina fatiava o bolo de aipim.

— Catarina, posso perguntar uma coisa? — veio Elvécia.
— Não.

Beberam os chás. As bocas, de pele outrora firme, sorviam a transparência quente e colorida das xícaras inglesas.

— Se eu puder não responder, pergunte.
— Esqueci, depois eu lembro. — sorriu.

Glorinha distribuiu, cada uma recebeu onze cartas.

— Canastra é ótimo, o tempo passa rápido.

Dedos que não se esticavam por completo, mãos brancas pelo talco de rosas, cada uma observava seu jogo. Econômicas, não pegavam o monte, desejavam o morto que jazia no centro da mesa.

— Vou pegar.

Com o morto nas mãos, Catarina adicionava cartas junto aos leques sobre a mesa.

— Parece que quer se livrar do morto. — espetou Elvécia.

Catarina pegou sua pilha de descartes, encaixou mais naipes nas seqüências.

— Acabei com o morto. Bati.
— Você devia era ter batido naquela mulher no enterro. Lembrei.

Glorinha saiu com o bule pra trazer mais água quente.

— Aquela senhora trabalhava na casa dos pais dele. — explicou Catarina.
— Avisei, você devia ter se dedicado menos, homem não respeita mulher dedicada.

Glorinha, ouvindo da cozinha o atrevimento, não conseguia voltar à sala sem algo pra afrouxar a hostilidade. Ficou pelos armários fingindo atividade.

— Por que isso te interessa?
— Tremenda amante no enterro do marido, uma vergonha.
— Pensa nisso há dez anos?
— Acha pouco? A vida inteira sofri por causa do seu casamento cheio de respeito, sentimentos brandos e desejos saciados. Teu casamento me deixou fora da locomotiva.
— Que locomotiva, Elvécia? Dou três segundos pra sair da minha casa. Nunca expulsei ninguém deste lar que é, e sempre foi, sim, um lugar de sentimentos brandos e desejos saciados. Ponha-se daqui pra fora!

Glorinha veio da cozinha com o bule cheio e um prato de sequilhos.

— Quem embaralha? — arriscou Glorinha.

Elvécia não se levantou e voltou-se às cartas.

— Eu embaralho.
— Saia da minha casa, Elvécia.
— Vamos, Catarina, você começa.

Glorinha sentou-se entre as duas. Elvécia mantinha sua posição.

— Não vou embora sem explicação.
— Não te passa que esse assunto seja meu?
— Esse assunto também me pertence. Só fui feliz no dia que vi aquela senhora no velório.

Catarina levantou-se e dirigiu-se ao banheiro.
Elvécia cochichou com Glorinha.

— Ela me dizia que não conheci a vida porque não tive marido.

Catarina voltou com o batom retocado, sentou-se à mesa com as cartas já postas.

— Podemos começar.
— Desta vez eu pego o morto. — disse Glorinha.

Uma trégua se fez, elas pensavam nas estratégias. Mais uma vez econômica, Catarina comprava cartas, mas descartava o futuro promissor, uma canastra real.

— Quero o morto rápido. — disse Catarina.
— Veremos. — ameaçou Elvécia.

Glorinha preencheu as xícaras com mais chá.

— Você dá muita pelota pro morto. — disse Catarina.
— Não dá pra ganhar sem ele. — disse Glorinha.

Elvécia ajeitou o quadril. Catarina escondia com os dedos uma carta atrás da outra.

— Você teve medo, eu não, tenho retratos pela parede, cartas de amor. Não tenho medo do morto nem da morte, de nada.
— Nem de saber que seu marido amava outra?
— Eu sabia. — disse Catarina.

Elvécia engasgou-se com o chá.

— É uma honra saber da outra e permitir que aquilo se passe. O segredo é não deixar que o homem desconfie, ele terminaria o caso. Feliz daquela que enterra o marido. Olhe aí, bati outra vez.




foto: Brassaï


(conto publicado na revista GNT deste mês)

Escrito por Andréa del Fuego às 02:46 PM
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