Andréa del Fuego


nego tudo

Lembra que lancei um livro com edição limitada de 107 exemplares pela Fina Flor? Que esse não teria nunca, jamais, uma segunda edição? Que se você não o adquirisse no lançamento, nunca mais na vida? É verdade, aquele, só aquele. Com bordado e assinatura feitos na madrugada, edição única, artesanal, orgânica.

Mas agora. Agora ele se desdobra, a pedidos. O livro Nego tudo terá segunda fornada, prova de que um livro impõe seu rumo sobre o autor e até sobre o editor.

Xico Santos, presidente da editora Altana, se alia à Fina Flor para que o livro venha em edição comercial. O mesmo livro, mas agora com orelha (sendo escrita por um cabron de dar gosto), mais barato e distribuído pelo Brasil de meu deus. Glória ao Xico Santos e à Cristiane Lisbôa, pastores da multiplicação. Essa dupla é de tirar o sono.

Logo mais, digo tudo, além de quando e onde.




Escrito por Andréa del Fuego às 01:05 PM
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Vitória

O cabelo era de menino pra não pegar piolho. Crespo, lêndeas se perdem nos cipós de queratina.

O sino badala de hora em hora, na igreja. Tecidos orgânicos estão habituados ao som do bronze. Caso não vibre, talvez rim e fígado esqueçam as funções dentro dos corpos. Nos falecimentos o badalar é contínuo, quase ressuscita o morto. Penetra hastes em vez de compressas em quem vela noite adentro.

— Vou ligar o rádio, saber quem morreu. — disse a avó.

Vitória, sem piolho, foi atrás dela. A cidade perdeu Berenice, morria aos oitenta e lá vai pedra, morava na praça. Com o término da missa, emitida pelo rádio, a menina correu pra esquina ver o cortejo. Quando passasse por ela os homens carregando o chapéu contra o peito, seguiria a família até o jazigo.

Na frente do caixão ia outra menina, Rita, neta da finada. Atrás os mais velhos, amigos, por fim curiosos e oportunistas de um café com prosa. Vitória notou os sapatos de Rita, brancos e laços largos borrados de poeira. Vitória enfileirou-se no cortejo entre um senhor e outro.

Conforme passavam pelas lápides, Vitória distanciava-se do funeral entretida com as fotos dos enterrados. Sorrisos de quem espaço e tempo são gases. As faces com neblina, na morte a química revela-se ao contrário, a prata das fotografias perde o fundo do rio, fica raso o espelho.

Vitória parou em seu túmulo. Olhou pro retratinho, pros arranjos florais, o dia seco, céu aberto. Um choro agudo ao longe, as filhas despedindo-se de Berenice. Rita junto.

Soube ali, que cedo ou tarde, enterraria também sua avó, depois sua mãe. Até lá moraria no olho de porcelana das fotos. De extensão covarde o que tomava criatura tão pequena, sete anos de vida que engendraria outras. Rua quatro, jazigo 339.

Vitória foi de repente, ninguém soube a causa. Hoje vigia os brinquedos que a família guarda no baú. Passa o dia na casa da avó, monta o muro, ouve ao lado dela os sermões que o locutor espirra pelos poros do radinho, senta-se nas janelas. Tem tontura quando a mãe comunga nas missas. Vitória morreu antes de finalmente pegar piolho.

— Quer brincar comigo?

Era Rita, tão morta quanto Vitória. Morre-se fácil. A pequena foi se espichar na beira da cisterna, num cálculo errado entre o impulso e o apoio, caiu. O corpo ficou inerte no lençol freático até a chegada tardia dos homens da casa. Alma de aragem agradável, ela tinha um contorno luminoso.

Vitória nunca teve com quem ir do inferno ao céu na amarelinha, outros moradores da necrópole não viam mais nela novidade. A chegada de Rita cintilou Vitória.

Antes do anoitecer, foram as duas roubar os crisântemos dos túmulos para colocá-los no portão de entrada. Com o sono dos parentes chegando, a qualquer momento teriam visitas. As duas de prontidão, até que suas mães a chamassem por graça e oração.




foto: Isabel Santana

Escrito por Andréa del Fuego às 12:55 PM
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cinema nordestino

Ontem foi o lançamento da I Mostra Paulista de Cinema Nordestino. O projeto é de Gregório Bacic, diretor do programa Provocações da TV Cultura. Finalmente o cinema fora do eixo augusta-vinte-reais-shopping. A mostra será exibida onde está a maior parte do nordestinos no país, depois do nordeste. Rolou uma palhinha de cada película, é imperdível.

A festa foi no Ásia70 para jornalistas e convidados, Gregório respondeu antes que perguntassem: por que uma festa no Brooklin se a mostra é na periferia? “Porque se fosse em Guaianases, vocês não iriam.” É assim, sem o trombone, como botar a boca nele?

Não tem desculpa, também rola exibicão em Pinheiros; e se você mora longe dos cinemas, agora pode ser que ele esteja perto, e é gratuito. Os ocres nos pincéis da melhor safra de cineastas.

Programação e mais, aqui.




Eduardo Coutinho, um dos cineastas da mostra.

Escrito por Andréa del Fuego às 11:32 AM
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Conversas com Cortázar

Esse é o título do livro em que confidências e idéias de Julio Cortázar são coletadas pelo amigo jornalista Ernesto Gonzales Bermejo. Edição competente da Jorge Zahar Editor.


“Na vida aparentemente unilateral que levamos, e que nos impõe de certa forma uma inteligência pragmática, utilitária e seletiva, acontece sempre comigo, nos momentos de distração, uma coisa que é o processo inverso ao que usamos para tirar uma fotografia. Quando você vê duas imagens no visor da sua câmera, você as superpõe para que fiquem em foco e aí bate a foto. Eu, para tirar a foto, tenho que separar as imagens. Ou seja: em determinados momentos, as coisas se apartam de mim, se movem, correm para um lado e, então, desse oco, dessa espécie de interstício que eu não sei exatamente o que é, surge um estímulo que, em muitos casos, me leva a escrever, ou pelo menos me coloca em estado de porosidade ou receptividade que faz com que me sinta incentivado a comunicar, faz com que o texto me volte mais fácil.

Neste sentido, eu sou um pouco pára-raio. Há pessoas que, quando isso acontece, quando se deslocam um pouco, ficam inquietas e sentem vertigens, não gostam nem um pouco da coisa. Preferem que dois e dois sejam sempre quatro e todo movimento, todo deslocamento produz nelas uma certa angústia.

Comigo é diferente. Não apenas não me sinto mal, como também fico num estado favorável para escrever. Não é que eu esteja esperando por alguma coisa. Isso seria artificial. Quando estou conversando com você, não estou ansioso para que aconteça algo que possa ser qualificado de anormal. Mas se acontece, sim: me ocorre, de imediato, uma associação de idéias, um déjà vu ou outra sensação paranormal qualquer, e é perfeitamente possível que isso se traduza amanhã em um algo que escreverei, mas o tema não terá, provavelmente, nada a ver com nós dois.

Acredito que quando uma pessoa é porosa nesse plano, tudo o que chamamos de ‘casualidades’ ou ‘coincidências’ se multipilca. Mais: acredito que você acaba atraindo essas casualidades.”

Julio Cortázar





Estou às delícias com esse livro, que indico aos amantes da escrita. Voltarei a postar trechos.

Escrito por Andréa del Fuego às 10:23 AM
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minha amiga e o soldado

Neste sábado fui madrinha de um PM, ele se casou com minha amiga de alma, a Maria Eugênia. Antes de falar do casamento, quero falar de nossa amizade e dela, a Maria.

Aos 16 anos, tentei ser gótica, vestia um sobretudo roxo e ia à Praça Roosevelt. Não deu certo, eu ria muito. Não ria dos góticos, ria de qualquer coisa, como até hoje. Eu e minha amiga Maria Eugênia, que se casou neste sábado, dia 13. Hoje estamos aí, essa fase nem lá nem cá. Maria Eugênia calçava espora e metia botada nos caras dentro do ônibus, como eu. Foi criada no ABC, como eu. Ela se casou com um policial, eu me casei com um fotógrafo. Agora ela é advogada e eu, escritora. Onde a gente vai com isso, ainda não sei.

Gosto muito desta amizade sólida. Tivemos uma convivência de gêmeas há anos, hoje nos falamos ao telefone toda semana. Eu digo alô e ela manda eu ir logo ao assunto. Com ela eu posso; ela sabe quase tudo, quem sabe muito sobre você consegue chegar próximo do que é mais confortável e sincero.

Maria Eugênia é filha de um taxista paraibano que tem muitas famílias. Ela é filha única e descobriu uma irmã aos trinta anos, filha dele com outra mulher com quem o pai é casado. Maria Eugênia foi a primeira mulher brasileira a competir com homens em rodeios. Sim, ela ama cowboys, eu não, nossa primeira diferença. Maria Eugênia é uma amazona, monta cavalos com tanto garbo, que parece o próprio São Jorge. Ela fica oito segundos em cima de um touro, se levar um coice, será uma patada de mil quilos, uma tonelada. Isso há dez anos, hoje ela amansa outras feras.

Fui a madrinha de seu casamento, neste sábado. Bebel emprestou-me um lindo vestido verde, comprei flores para o cabelo, flor roxa, gótica.

Melhor não se meter comigo, Maria Eugênia é minha advogada.

Maria homenageou-me botando André e eu no altar. Casou-se na Capela de Nossa Senhora de Fátima, padroeira da cidade de Marília, onde mora. Dia 13 foi o dia da santa. Ela é trazida, a imagem, de Portugal, todos os anos para a pequena cidade. Seu casamento foi uma exceção aberta pelo frei. Assim que trocou as alianças com o seu soldado, a porta da igreja se abriu e a imagem entrou como a segunda noiva do dia, trazida por monges. O povo, que vinha em procissão, ficou parado na porta da igreja. Maria Eugênia deu seu buquê para a santa, solteira eterna, e saiu aplaudida pelo povo da cidade.

Minha amiga se casou com um soldado, ele tinha um rosto emocionado pelo laço que fazia e pelo medo, medo do que está acontecendo. Agora ele quer se transferir para os Bombeiros, onde corre menos risco, até ontem. Porque agora ele tem a Maria, abençoada pela santa. O soldado da minha amiga me desarmou, é um homem doce, nunca estive tão perto de um PM e agora sou comadre de um. Estou reavaliando o que penso, e olhe que já sofri abuso policial. Minha amiga, amiga do peito, amiga secular, se casou com um soldado.

Desejo que os soldados voltem para suas Marias todos os dias, sem arranhar e sem arranhões.

Desejo às Marias que perderam seus soldados, a minha força. Desejo às Marias que perderam seus cowboys nos presídios, e a todos nós, o mesmo.

Escrito por Andréa del Fuego às 01:45 PM
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paladar carioca

Espero o verão ficar a pino, e quando o sol assa a hipófise dos peixes, eu me desloco. Escorrego de uma estação para outra. No apartamento ainda é primavera, na orla já é verão.

Rio de Janeiro é uma siderúrgica a céu aberto. Os metais se fundindo, o bronze dos corpos, o alumínio das cadeiras, os vergalhões do calor.

Queijo coalho e mate. Vê dois, moço. O verão é um casal. Um é salgado, com orégano. O outro doce, com limão.

A fala é um gesto da boca, solte o riso que o gosto surge. O paladar é meu veraneio, espirro água termal na sobremesa, tomo jarras do que refresca. A neblina morna faz em mim o que a você compete, o sabor é imperador dos reinos, unificados pelo cheiro e a cor.

Não quero sombra, se não, confundo os ventos.

Bocheche o meu amor, anestesia a gengiva, os amargos se adoçam, mudam de idéia as pimentas. Aceite o licor, é de menta. No verão, nasce hortelã nos molares; o que vier do sol, tem cachepô e sacada, é só exibir.




foto: Frank Horvat

Escrito por Andréa del Fuego às 05:23 PM
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Literaturas, Fronteiras, Enfrentamentos

Neste final de semana tem Literaturas, Fronteiras, Enfrentamentos, um evento do Projeto Identidade. Estarei domingo, às 14:30, na mesa Zines, Blogs, Literatura e outras Fronteiras, com Ivan Antunes, Reynaldo Damazio e Claudinei Vieira.


Aqui tem a programação. Venha, e depois a gente toma cerveja por lá.


Literaturas, Fronteiras, Enfrentamentos
Dias 6 e 7 de maio (sábado e domingo)
Espaço dos Satyros II
Pça. Roosevelt, 214, Centro, São Paulo. Tel.: (011) 3258-6345

Escrito por Andréa del Fuego às 04:22 PM
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Desconfiei do cigano, cartas na mesa por vinte reais.

Tirei uma. Apareceu uma rainha, senhora morena, invertida. A coroa pra baixo, pés aflitos pra cima. Significa nada, afoguei a carta num copo com água, o vestido molhou, ela perdeu os sapatos. O cigano me proibiu de tocar no baralho, puído, gasto nas quinas, as linhas da mão desbotando o arcano. A rainha morta, ele sem a carta do juízo. Por mais vinte, eu teria direito ao segredo sem avariar o tarô. Tirei outra. Copas, um seis. O que me espanta não é te amar tanto, o assustador é que você sabe.




foto: Magnum Photos

Escrito por Andréa del Fuego às 11:00 AM
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