Andréa del Fuego


Cristóvão


Dirijo metrô, melhor já falar. Faço a linha mais movimentada, tantas vezes, que tanto faz leste como oeste pro meu juízo.

Da cabine anuncio as estações. Sou o primeiro a ver, o primeiro a chegar, vejo a cara do povo me esperando. A derradeira viagem sempre tem alguém. Num feriado, ficou eu na cabine e uma moça no quarto vagão. Sei dela pelo espelho, saiu correndo com uma sacola no braço, sapatinho de salto, desses que é de salto mas não é fino, desse salto largo que só levanta, não empina.

Nesse dia deixei o trem na garagem e fui andar pelos vagões. Procurava esquecidos: já peguei guarda-chuva, cachecol, Amendocrem, chaveiro. Nesse dia, um bolo de cartas. Tudo deixo na estação, as cartas peguei pra mim. Letra de mulher; eu nunca recebi uma, que dirá uma despedida.

Tem a Inácia, que fica à noite. É solteira, fala pouco, deve ser isso. Também fico na minha, se arrisco, piora. No microfone tenho voz de locutor em todas as paradas, falo bonito que eu sei. Inácia disse. Mais alguém disse, não digo quem.

As cartas eu respondi. O remetente igual pra todas: Estação Bresser, seção Achados e Perdidos. Não estranhou o endereço e respondeu que ia pensar, achar a carta no banco é destino traçado, não ia botar entrave. Ia voltar, ela passaria por mim, minha linha amarela, estação Armênia. Talvez a reconheça, pelo espelho, disse com que roupa vinha, a do noivado, com salto.

Saio aos feriados à meia-noite, ano-bom, dia da mães, dias em que se pára em torno de um forno e bebida nos copos pela metade. Telefono pra minha tia que mora a quinhentos quilômetros do meu quarto. Ela atende com pressa, tem que fatiar o assado e encher os copos das visitas.

Esse ano não vou abrir as portas na última estação, quem estiver vai comigo pra garagem. Tenho no isopor o que precisamos, até pudim fiz: uma medida de leite condensado pra duas de leite. Não sou pederasta porque faço pudim, sou sozinho, é diferente. Botei ameixa por cima, pra ficar natalino.




foto: Robert Doisneau

Escrito por Andréa del Fuego às 11:51 AM
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Laurinha Jorge

Deu piti do helicóptero, os casadinhos tinham que ser de tâmaras turcas. O esmalte areia perdeu uma lasca enquanto gerenciava pelo celular.

A cauda do vestido era o extenso tecido do pára-quedas. A mochila matelassê gelo guardava a cauda dobrada. Ao sinal dos balões prateados, soltos pelos empregados da fazenda, Laurinha Jorge Couto atirou-se do helicóptero.

Com braços abertos, o vento borrando a maquiagem ainda fresca, Laura Jorge via crescer seus convidados a cada segundo. Puxou a cordinha e nada. Prometeu pulseiras douradas pra cigana da umbanda. Tentou de novo. Abriu.

Um balão branco a puxou pelos ombros, as pernas soltas, sem raízes no chão. Laurinha caiu, vestida de noiva, de unha lascada, no gramado. Foi arrastando a cauda do vestido, o pára-quedas: pesado, foi descosturando as pences das costas.

As daminhas vestiam roupa de seres de jardim. Uma era joaninha, outra borboleta, as duas sobrinhas do jardineiro. Os convidados, estacados, bem vestidos. Roupas alugadas por Laurinha.

Os convidados eram pessoas a trabalho, assim como o padre, onde puseram peruca grisalha num jovem de porte Dior. Todos pagos pra atuarem. O noivo, o noivo era o motorista, instruído para que depois dos brindes com os figurantes, a levasse no colo até o quarto.

Laurinha Jorge, casada, ia ter filhos pra morrer antes que ela. Pra ter dor digna de grandes velórios, idosa e forte para os fotógrafos. O cozinheiro sugeriu, ela acatou. Filhos de vela artesanal. Em formato de bebê, pavio ereto no alto da moleira. Dando o tempo certo, acenderia o pavio e o botaria em altar com outros filhos. Uma escadinha de onze, filhos de um a treze anos.

A dor bonita, lenço bordado, o enxoval dos filhos intacto. Laurinha pensa na velhice, nos pés que gosta de molhar em geléias de amora pra amaciar a sola.

Laurinha é Jorge.

Jorginho Laura, travesti premiado na Loteca Figas, casa de jogos na comarca de São José do Rio Pardo. Os empregados são parentes que ele trouxe.

O noivo é antigo taxista, antigo amor, tem vitiligo. Alegria de Jorginho é o marido deixar passar pó-de-arroz no vitiligo. O taxista deixa, passeia com tez uniforme, mãos dadas com a boneca.




foto: Brassaï

Escrito por Andréa del Fuego às 12:22 PM
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31, o inverso de 13

Faço 31 anos hoje, às 6:20 da manhã.

Fiz o mapa astral. É áries com ascendente em áries. Lua e vênus em gêmeos. Marte em peixes, esse é o pepino, esse marte em peixes. Marte, o guerreiro, a forma como você se posiciona no combate, justo em uma dupla ariana como eu, está em peixes; aquele que abre mão, aquele que se molda feito água, que retém e deixa vazar. Ou seja, me meto de primeira, e quando me ferem, eu sento e choro. Choro de clarear as sardas. Abro mão do combate, vou pra debaixo da cama. Entro na arena como fogo, saio dela como água. São posicionamentos antagônicos, conflitantes.

Isso está em meus textos e em minhas decisões. Cada texto é uma decisão que tomo. A mesma decisão obsena e obsediada.

Quando fiz 13 anos fiquei feliz porque me aproximava dos 14. Encanei que aos 14 eu seria completa. Hoje, com 31, acho que estarei pronta aos 41, que é o inverso de 14. Fico esperando. Preparo-me pra ser centenária. Verei muita gente indo embora, mas verei muita gente chegando. Velhota risonha que derruba a limonada. Assim farei 1 ano, quando chegar aos 100, sem inverso algum.


Feliz aniversário, neta de Maria.



Leonardo da Vinci

Escrito por Andréa del Fuego às 11:01 PM
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a Letícia Birkheuer que você não viu

André de Toledo Sader, meu maridinho, maridão, fez um ensaio no Rio de Janeiro com a Letícia Birkheuer, belíssima, para a Vogue RG. Abaixo, fotos inéditas (menos a com a Glória Pires), que você não viu e só verá aqui.



foto: André de Toledo Sader




foto: André de Toledo Sader




foto: André de Toledo Sader




foto: André de Toledo Sader



foto: André de Toledo Sader

Escrito por Andréa del Fuego às 03:25 PM
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Clóvis


Elis e Elson são irmãos e velhotes. Ele prometeu que se ela caísse, a levantaria, não tinha perigo. No mais, se a labirintite atacasse, tinha hospital perto. Parque Clóvis. Dois brinquedos pelo preço de um. Depois da montanha mágica, Elis decidiu pela roda gigante. Dali o dinheiro dava pro churros. Elis foi pra barraca escolher um regalo de açúcar. Elson pra fila do banheiro, apertado.

— O meu com doce-de-leite, moço.

Com a massa na mão, fálica e frita, sentou-se num banco. Hora do lanche no Parque Clóvis. Quente, o leite dourado e caudaloso. Tinha que correr com a língua pra calda viscosa não alcançar a mão. Um senhor ficou olhando a lambeção, deu vergonha. Ia lamber aquele troço regurgitando doce-de-leite. O outro confeito só não tem açúcar polvilhado, de resto, até o tamanho e a função. Não, na frente das crianças, na frente dos moleques. Cachorro-quente era melhor, a salsicha escondida pelo pão, ninguém via aquilo entrando na boca. O churro é explícito. Se botar a boca com jeito é pior, vai parecer experiência.

Elson estava no banheiro desde a compra do sujeito. Elis tinha que liqüidar aquele doce indecente o mais rápido possível. Pra resolver, foi enfiando o churro inteiro na boca. Mastigou a primeira parte até engolir num espasmo. Mais uma mordida e o churro terminava, respirou e fim. O corpo não entendeu tanta pressa e mandou de volta, a garganta cuspiu a massa, o doce-de-leite escorreu pelo queixo. Melhor assim, sem a forma original.

— O que foi, minha senhora? — veio o guarda.

— Engasguei.

— A senhora não vai embora? O ônibus da excursão tá saindo.

Elson saiu do banheiro batendo as mãos nas laterais da calça, os polegares em tom escuro debaixo dos bolsos. A excursão já tinha ido, o parque vazio; tirando a turma do bairro Baeta, quem se enfiaria debaixo de garoa num Clóvis? Elis comprou outro churro pra comer sem pressa. Elson sentou com ela.

— O ônibus foi embora! Por que não me chamou no banheiro?

— É pra você — e deu o churro pro irmão.

Elson olhou pro churro, um cilindro oco.

— Cadê o recheio?

— Elson, vai por mim, melhor sem.



foto: Robert Capa

Escrito por Andréa del Fuego às 09:30 AM
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Queria ver de perto dois homens se beijando,

se catando. Bem de perto. Conheço dois homens que dariam um quadro, o amor dos dois. Os nomes não digo, eles não podem saber. Eles nem sabem que se beijariam. Acham que as mulheres saciam, bobagem. Fosse assim, eu ficaria sozinha. Mulheres, para homens completos, não passam da beirada. Eu sei que você não concorda, mas porque não quer.



foto: Edward Quinn

Escrito por Andréa del Fuego às 05:50 PM
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