Andréa del Fuego


museu da língua portuguesa

Vá, e leve um casaco para os dez graus do segundo andar. É mesmo um museu, não mentiram pra gente. Espero que haja diversas mostras da Língua em sua agenda. Uma por mês, o tempo que fica em cartaz um filme, todo mundo doido pra ver antes que saia. Doida pra ver um andar só de Machado de Assis. Outro de Monteiro Lobato. Um espaço para os contemporâneos, curador, que são os ourives vivos. As possibilidades são muitas. Botaria mais músicos junto ao Arnaldo Antunes no elevador, fácil. Um elevador com todos os sons da língua. Eu ia descer e subir sem parar. Botem uma instalação para Nise da Silveira e o bordado de Bispo do Rosário, faz favor, eles também cuidaram da linguagem. Os cartunistas por eles mesmos. Botem filmes inspirados em obras literárias. Editoras, distribuam livros por lá, uma ediçãozinha barata. Se Marcelino Freire, que é um só, fez a Coleção 5 Minutinhos, o que não pode você, grande editora? Vai lá fazer alguma coisa. A Estação da Luz está perfeita para o embarque. O que tem lá está nos trinques, mas eu quero mais, o acervo da língua é bem maior. Vamos esperar o próximo trem.


a Estação voltou a usar terno, tirando o bonde

imagem: São Paulo 1900, CBPO / Livraria Kosmos Editora


Trouxe de lá:
Ler vem do latim legere que é: colher as plantas!

Colher as plantas. Ler é arrancar do solo uma erva, daninha ou de cura. Diga-me, onde colhe suas ervas?

Escrito por Andréa del Fuego às 10:49 AM
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Confraria do Vento

Vem .

Escrito por Andréa del Fuego às 09:54 AM
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...

Não li Dom Quixote, assim como não li vários seminais. Chegou a hora, estou procurando uma edição barata e bem feita de Cervantes. Esse não vou comprar em sebo. Há livros que não consigo ler usado. Para alguns autores, gosto de ser a primeira, nem que seja só naquele papel.

Enquanto isso, estou relendo Grande Sertão: Veredas. Guimarães, já na terceira página, te dá de comer, vestir e morar. É dessa nutrição literária que procuro. Nutrição, não referência. Motoristas procuram referência. Nutrição procura o leitor. Rosa é frondoso, bomba significados a cada garfada. Histórias lineares são lineares, claras, vão ao ponto, são previsíveis quanto às descobertas, o espanto se dá na hora e foi, como notícia de jornal. Delas também me engambelo e há seu prazer. Mas o Rosa tem uma agulha fina que perfura couro, sarja, seda, o ar. Não só te espanta como te expande. Glorioso.



Escrito por Andréa del Fuego às 12:24 PM
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Porção de coisas

(conto do livro Minto Enquanto Posso)

Foi rápido demais, cruz-credo.

Um tombo, a cabeça na lajota e lá amarrava os cadarços pra sempre o Seu Amparo. Homem bom como ele só ele mesmo. Vendia fiado pra poeta, veja que coisa bonita. Num dia de hoje, deixar vagabundo beber sem pagar, só o Amparo. Poeta é tudo vagabundo. Ô raça pra dever. E ainda quer comer a mulher dos outros.

Amparo uma vez saiu detrás do balcão até nossa mesa contar essa. Diz que um grupo de escritores veio lançar um livro aqui no bar, o marido de uma dona pagou um sujeito pra escrever e assinar com nome artístico, essas coisas. Como ela não desgrudava desse povo - onde ia um poeta ela ia atrás falar dessa chatice que é poesia - foi ao lançamento e levou o marido, entendeu? O cara armou essa pra pegar o safado. E pegou? Pegou coisa nenhuma.

Se Amparo estivesse vivo ele te contava do jeito dele, ele que era bom pra contar.

A mulher ficou quietinha na dela que nem faz mulher mesmo. O poeta, ó, deu linha na pipa. Parece que comia a dona lá no depósito. Amparo deixava, era honesto esse Amparo, deixou o poeta morar no depósito quando o malandro foi despejado dum quartinho aí.

E quando Amparo inaugurou essa casa? Veio nego de longe, parente que chegou e voltou mais não. Ficaram pelo depósito, depois veio o poeta e uma mãe solteira que se ofereceu pra ficar na cozinha.

Amparo foi bom vivo, morto deixou o comércio pra pagar dívidas. O poeta está lá em casa, me paga a pensão cozinhando e atendendo telefone. Escreve nas horas de folga, olhe esse aqui:

Batatinha quando cresce
É frita no panelão
Menininha quando acorda
Sapeca a mão no cacetão



foto: Bill Brandt

Escrito por Andréa del Fuego às 02:48 PM
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Mulherame

E ainda no Mulherame, hoje tem Fernanda D'Umbra lendo contos das escritoras convidadas: Clara Averbuck, Ivana Arruda Leite, Márcia Denser e eu.

Não sou besta de perder esses textos envergados pela D'Umbra. Não sou louca.


foto: Edinho Kumasaka

Será às 20h no Sesc Vila Mariana. Em ponto. Em seguida terá o show de Stela Campos.

Nos vemos lá.

Escrito por Andréa del Fuego às 01:01 PM
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pra comemorar o outono

Hoje, às 20h, Clara Averbuck, Ivana Arruda Leite, Márcia Denser e eu, estaremos no Sesc Vila Mariana para um bate-papo. Assunto: literatura. Mediador: Marcelino Freire. Previsão: as melhores.

Caso não vá, por causa da chuva, da preguiça e do dentista, você pode participar do bate-papo mandando suas perguntas aqui. Responderemos. Mas venha, deixe de coisa, venha pessoalmente papear com o Mulherame.



Escrito por Andréa del Fuego às 11:17 PM
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Fiat Lux

(conto do livro Minto Enquanto Posso)


Com perícia, examina a expressão pelo espelho, está sentada em um camarim de madeira, pluma pendurada, foto de astro, grampo de cabelo, calcinha e sapato pelo chão.

Claudinete tinge de rubro a boca, de esmeralda as pálpebras, vela as pernas com meia-calça. O vestido brilhante cola nos seios, as tiras das sandálias se espiralam pelas canelas, vocalises — entre uma tarefa e outra — são ouvidos da esquina, finaliza ofertando um beijo ao céu.

Está pronta, abre a porta e a tarde nublada inunda o camarim. O camarim é seu quarto, ele cospe sua cor interior para a rua. Na favela de compensados de madeira, a disposição dos cômodos não é a usual, pode-se entrar pelo quarto ou cozinha, tudo é espaço visando à porta quando se fecha.

Caixas de sapatos servem como gavetas, as roupas recém-tiradas do varal dividem a mesma estante das panelas areadas.

Tranca a casa com um cadeado e vai em direção ao Fiat amarelo, modelo 147, ano desconhecido. Procura as chaves na bolsa de corino preta e estrias brancas de tanto uso.

Dá a partida, o motor falha.

— Não acredito!

As mãos vasculham a bolsa, tira um maço de cigarros, um fósforo impotente se apaga, um outro consegue dar fogo.

— Era o que me faltava: essa joça não pegar.

O Fiat dá saltinhos, falhando, até pegar de repente e sair num arranque. Desaparece virando a primeira esquina. Indo pela estreita rua de terra, sintoniza uma estação de rádio.

— Que horas serão?

Pára em frente a um barraco e berra.

— Lucilene? Ô, Lucilene?

Lucilene afasta a cortina fininha da janela, revelando aos poucos o rosto amargo.

— O que tá pegando, Clau?
— Sabe aquela peruca loira espetada? Aquela que você emprestou da Fabiane?
— Já devolvi.
— Lucilene, empresta, vai!? Ela não vai saber.
— Como eu fico? Ela me arranca a unha se descobre, ela te odeia.

Entreolham-se, o Fiat morre, Claudinete pega outro cigarro e acende-o sem tirar os olhos de Lucilene.

— Espera aí...

Claudinete procura outra estação de rádio, Lucilene traz a peruca.

— Vê lá!
— Lucilene, tem dó! Eu só vou pôr na cabeça, não é despacho.
— Onde é o show?

Claudinete dá partida, o carro pipoca.

— Esse de hoje?

O motor pega.

— Hoje eu vou no Quanto Vale O Show, amor.

O Fiat sai chacoalhando pela rua acidentada. Lucilene fica de boca aberta, com os dedos escorrendo pela testa.

— Filha duma égua!

(continua abaixo)

Escrito por Andréa del Fuego às 04:22 PM
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Claudinete passa pela guarita e vai entrando em um estacionamento. Ela desce e anda, enquanto encaixa a peruca. Um grande portão se aproxima. Percorre um longo corredor, até encostar-se num balcão. Atrás dele, um senhor de meia-idade, prancheta em uma das mãos, sorve um café.

— Oi, eu sou a Samara Palmas, vim me apresentar.
— Qual é o programa?
— Quanto Vale O Show.

Ele procura o nome na lista.

— Não há Samara Palmas. Tem certeza que ligou pra marcar e recebeu confirmação?
— Sim, tenho certeza. Bom, vai ver eu disse meu nome de nascimento: é Claudinete Pereira. Eu não deveria, eu sei. As pessoas têm que se acostumar com meu nome artístico. Vê aí: Claudinete Pereira.
— Olhe, espere um pouco aí, deixe eu atender a este senhor.

Atrás dela, um homem com alguns dentes, chapéu de couro e uma sanfona. Uma fila de calouros ia se formando.

— Boa noite. Qual seu nome?
— É Francis Landelon, amigo. De Lavras da Mangabeira, Ceará. Confirmei já faz um mês, pode ver aí.

Claudinete observa os concorrentes, que também a observam. Vai para o final da fila. Um travesti emplumado e com a barba malfeita é seu maior concorrente. Mede o homem de cima abaixo.

O travesti faz charme com as plumas azuis, joga-as para o lado, bate a ponta na cara de Claudinete.

Pra revidar, ela enfia a mão na bolsa e tira uma tesoura. Ninguém nota a rixa dos dois, o travesti mostra descaso com a arma branca, mas se afasta. Claudinete leva a tesoura até a barra do vestido e corta um fiozinho solto. Guarda o objeto sem tirar os olhos da bicha que desiste da guerra sem perder o porte altivo.

No barraco de Claudinete, Mocinha pega uma escova de cabelos na mesinha do camarim e segue para outro cômodo, onde estão reunidas três gerações de mulheres em frente à tevê. Mocinha — nome dela mesmo, Mocinha Pereira — senta no sofá tirando os restos de cabelo da escova velha.

— Ai, saco! Comercial de novo, o que será que a mãe tá fazendo agora?

Claudinete gargalha olhando para o traveco, enquanto a fila quase termina. O travesti se insulta, aproxima-se, põe a mão entre as pernas.

— Isso aqui você não tem, sua racha uó!

Claudinete desdenha a bicha e volta para o balcão.

— E aí, tio? É Samara Palmas. Já achou?

Na sala do barraco, volta a vinheta do programa, o apresentador chama a primeira candidata.

— Que ruflem os tambores! Com vocês, Dejanira Alves!

Todos no cômodo estão ansiosos, a mulher mais velha acaba derramando a cerveja em cima do sofá. No camarim, uma vela branca é derretida pelo fogo, revelando o sorriso infantil de Claudinete, aos oito anos, numa fotografia colada na parede. Desconhece-se a identidade dos santos para quem Samara Palmas pede perdão e fortuna.

Dejanira começa a cantar, cover da cantora Perla. Um dos jurados fascina-se com Dejanira, paira os olhos no ventre da caloura.

Lucilene, em sua casa, está apavorada por causa da peruca emprestada às escondidas. Rói as unhas com a cara colada na tevê.

Mocinha, filha de Claudinete, desaprova a caloura.

— Imagine! Essa aí não pega nada.

Ninguém desgruda os olhos do programa, de repente uma escuridão e um silêncio. Tudo se apaga pela casa, pelas ruas, pelo bairro. Nas trevas apenas se ouve:

— Puta que pariu, acabou a força! Será que acabou lá no programa também?
— Lá não, lá deve estar uma luz que só vendo.

Uma jurada, com uma buzina, expulsa Dejanira Alves do palco. Os jurados ao som berrante e confuso da platéia ficam menos engraçados vistos pelas frestas do cenário. A boca do apresentador chama Samara Palmas. Claudinete benze-se a caminho do palco.

Identifica-se a casa de Claudinete, na escuridão total, pelas vozes.

— É. Agora é esperar. Merda!
— Ô, Mocinha? Consegue pegar uma breja pra mim?
— Não enxergo nada, sabe de alguma vela?

Os pés de Claudinete entram em slow motion no estúdio e vão, gradativamente, sendo iluminados pelos holofotes do palco. Lembrou-se do som das torcidas em estádio de futebol. O maestro dá a nota e ela começa o cover de Tina Turner, sua especialidade.

A sala de Claudinete é enfim iluminada por uma vela. Estão olhando uma para a cara da outra esperando algo acontecer.

— Onde estava essa vela?
— Lá no quartinho da Claudinete.

A vela, ainda pela metade, é derrubada por pernas que tentavam chegar à cozinha, o pavio dá seu último suspiro e devolve o ambiente ao negro total.

Claudinete sai do palco assustada e vai procurando a saída, angustiada. Os grampos cor de bronze prendem fios da peruca que ela tenta arrancar. Lantejoulas pingam pelo chão despetalando o tecido, passa as mãos pelo corpo como gato lambe o dorso depois do chute da síndica.

— Essa aí não era a vela pro anjo-da-guarda da Claudinete?

O travesti faz sua Carmem Miranda, ela ouve seus agudos afetados que se raleiam enquanto sai do estúdio por um estreito corredor de volta ao anonimato.

Ao lado do Fiat, Claudinete transpira, vasculha a bolsa, não encontra as chaves nem o cigarro. Arromba o próprio carro.

Lucilene comemora.

— Graças a deus que acabou a luz, ninguém viu a Claudinete com a peruca da Fabiane.



foto: Brassaï

Escrito por Andréa del Fuego às 04:08 PM
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Afina o pau, cretino, na puta da tua mulher. Meu sexo não é apontador pra tirar madeira e deixar grafite nu pra outro papel. Vá te catar, sem pá. Fui a causa do teu derrame, um avc de repente. Amputaram as pernas, desligaram os aparelhos, porque tua mãe não te quis vegetal. Cremaram o corpo sem pernas, a enfermeira as enterrou no quintal, você deu bombons pra ela, a enfermeira gordota. O pó fúnebre a esposinha botou num pote de nescau, tomou com leite de cabra macho uma vez ao dia, até a lata acabar. A enfermeira rega cebolete sobre a terra das pernas, e eu, valso até meia-noite.



foto: Elliott Erwitt

Escrito por Andréa del Fuego às 10:54 AM
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shapearte

André de Toledo Sader, mon mari, participa da coletiva Shapearte. São fotógrafos, grafiteiros e artistas expondo seus trabalhos em shape de skate.

Expondo, junto com André, estarão Speto, Guto Lacaz, Pink Wainer, Renato-de-Cara, Marcelo MZK e muitos outros.

A vernissage é nesta quinta, dia 16, às 21h, no Studio SP - Rua Inácio Pereira da Rocha, 170 - Vila Madalena.

Estaremos lá, e depois, à partir das 23h, tem pista e dj; confira a programação da casa.



fotos: André de Toledo Sader

Escrito por Andréa del Fuego às 11:18 AM
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Joga pedra na Geni.


foto: Melvin Sokolsky

Escrito por Andréa del Fuego às 10:16 PM
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dia da mulé

Todo dia 8 de março, mulher que quer uma rosa, é só entrar numa loja Marisa; eu, de rosa atrás da orelha, estarei em Santo André papeando e fazendo leitura de contos meus e de autoras especiais que escolhi para o dia (Ivana Arruda Leite, Lygia Fagundes e Lispector). Caso esteja por lá, passando na porta do Sesc, entre pra modo da gente prosear, sô.

Literatura - SESC Santo André
No Dia Internacional da Mulher, Andréa del Fuego faz leitura de trechos dos seus livros (Minto Enquanto Posso e Nego Tudo) seguida de um bate-papo sobre sua paixão pelos livros, a mulher na literatura e na sua obra. Biblioteca. Grátis. Dia 08/03, quarta, às 18h.

SESC Santo André
rua Tamarutaca, 302
Vila Guiomar
Santo André - SP
tel: 11 4469-1200

Escrito por Andréa del Fuego às 01:19 PM
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Tem coisas que dão saudade antes que elas terminem, e deixam uma fenda. Paris foi assim, foi um download pessoal, em 3 meses sorvi o que não absorvi em 30 anos. Estou revendo as fotos, o diário e... que fenda.


o metrô

foto: André de Toledo Sader


a igreja

foto: André de Toledo Sader


o mapeamento

foto: André de Toledo Sader


nossa rua (rue saint denis)

foto: Andréa del Fuego


nosso quarto

foto: Andréa del Fuego


nossa sacada

foto: Andréa del Fuego


nosso canto, andré e eu

foto: André de Toledo Sader

Escrito por Andréa del Fuego às 06:54 PM
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Quem ganha sou eu!

Amigos leitores, valeu a presença no bate-papo do UOL. Já tinha feito outros, lá mesmo, e esse foi o melhor!

Como prometi no bate-papo, o primeiro que deixasse comentário aqui ganharia um exemplar de 'Nego tudo', um presente meu e da digníssima Fina Flor. Pelo horário em que dei o start da promoção, quem ganhou foi o Leiooblogtododia, cujo email é rocha_24@hotmail.com. Logo mais entro em contato contigo, esse exemplar é especial, edição limitadíssima.

Aos demais queridos, ai que pena, não há mais; agradeço o interesse sincero e se ninguém me der juízo, já já tiro eu xerox do livro e distribuo no farol. Cristiane Lisbôa, me segure!

Coisa boa que foi. Até o próximo, e que seja breve.

Escrito por Andréa del Fuego às 09:57 PM
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hoje!

Agora sim, logo mais faço o bate-papo do UOL, às 18h.

Papo sobre o Nego tudo e o que rolar, é com você. Tenho uma surpresa, um oferecimento elegante da Fina Flor, só pra quem aparecer.

Chegue mais, aqui.

Escrito por Andréa del Fuego às 11:05 PM
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Andressa

Andressa é manquitola.

Gosta das fotografias onde se alguém é coxo, não se nota. É branca azeda, não sai no sol, o dia deixa ela mais manca; o passo pisca, a perna se envergonha do normal dos outros, caminha gaguejando. Andar em vez de ser reto, faz curva de anzol no sentido horário.

Porque não sai do casarão, onde mora com as primas e Juvêncio - o tio -, tem moleza no corpo, flacidez. Há bacharéis que a querem; seu dote é uma fazenda de gado, mato aparado pra boi não tropeçar. As axilas aparadas, lá boi não pasta. Tudo aparado pra vista só dela. Ninguém chega nela, Juvêncio não permite.

Pra Juvêncio nada muda tocar ou deixar disso, Andressa é criação ciscando pela propriedade. Ela escapole com a perna mais curta, faz poeira com o pé debaixo da mesa. Festa à noite, ela sentada pra não mancar, toalete no fim do baile pra ninguém ver o defeito. A brancura de linho para os garfos dos bacharéis; Juvêncio roendo perna de galinha, picando moela pra molhar no purê, café e compota no fim. As primas não falam, nelas o cortado foi a língua.

Andressa de Assis, registrada em cartório. Assis de pai, Andressa de mãe. Quica se corre, quica se fica.

(conto do livro Nego tudo)



ilustração: Alphonse Mucha

Escrito por Andréa del Fuego às 12:20 PM
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