Andréa del Fuego


Amélie Poulain ou Amélia de Polainas

Ela pode se chamar Jolene e vai às tardes visitar o túmulo de uma atriz. Ela canta no coral, mas tem o hábito das polainas, as pernas dentro da lã, vocaliza de perna grossa. Tem marido que a espera tirar do forno o pato com laranjas. As polainas no aquecedor pra secar, não tem varal, não tem quintal, casa de mil anos.

Luís não gosta de polainas nem ombreiras, é pintor, quer coerência. A pasta de dente com listras vermelhas verticais, não as deixa enrolar por nada, as listras retas na escova.

Jolene, o nome está bem escolhido, fica esse. Jolene usa ombreira e polaina de propósito. Hora dessa bota joelheira, quer um homem pra baratinar, pra dizer que teve um. Pra ele tanto faz Jolene como Jussara ou Joelma, o que vier, veio. Perfura as moças pra ninar no colchão pélvico delas, ainda que de polainas.

Jolene vai ao cemitério levar flores em dois jazigos, um da atriz assassinada, outro de um tio que não conheceu, mas deixou a casa onde mora. A atriz foi morta por Luís, é bom deixar claro. Ela sabe, viu foto no jornal e ia visitar na cadeia, levava geléia de amora com bolo de ovos, um dia levou almofadinha para descansar os olhos, um travesseiro recheado de macela.

Percebeu o ódio dele por polainas na cadeia, Luís cuspia a comida quando a moça do refeitório estava por perto, ela usava polainas pretas; longe dela comia feito capivara na beira do rio, se fartando.

Jolene pra cima e pra baixo com as falsas panturrilhas, falsos ombros, falsa sombra.

Foi costurando ombreiras em cada malha, ousou botar em regatas. Luís já fora da prisão, pena cumprida, só queria uma capaz de o deixar usar o banheiro sem hora pra sair. E as polainas pela casa, até dentro do banheiro, onde ele fazia bolinha e botava dentro da cueca, do jeito que a atriz gostava; atriz de nome Amélia, polainas azuis.




ilustração: Alphonse Mucha

Escrito por Andréa del Fuego às 09:51 AM
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bate-papo no UOL é dia 3

Gente, a pessoa aqui não presta atenção nas coisas e divulga o bate-papo na data errada, afimaria. Será dia 03 de março, próxima sexta-feira. Claro que não vou requentar o café que fiz para os receber hoje; farei outro, bem perfumado, no dia 03.

Escrito por Andréa del Fuego às 10:40 AM
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hoje!

Hoje, sexta-feira, faço o bate-papo do UOL, às 18h.

Papo sobre o Nego tudo e o que vier, você manda.

Chegue mais, te espero com cafezinho, aqui.

Escrito por Andréa del Fuego às 11:01 PM
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Carta ao Autor Fora do Baralho - Nelson de Oliveira

"É certo que os escritores que, iguais a você, reclamam por estar à margem, esses escritores são os que, tendo ou não escrito obras de qualidade, não possuem capital social e nunca se esforçaram para adquirir algum. São os mesmos que detestam a vida social literária e defendem a velha máxima de que o importante, quando o assunto são os livros, é o mergulho no universo particular, ou seja, o trabalho disciplinado, solitário e silencioso. A grande literatura, para eles, é fruto da total privacidade.

É nessa hora que a necessidade tão humana de reconhecimento público cobra o seu preço. Apesar de elegerem a solidão como princípio estrutural, esses autores imaginam que o seu trabalho literário, tão solitário e relevante quanto o de todo mundo, deveria produzir (se possível no mesmo momento em que estiver sendo gestado) uma reação estupenda dentro da comunidade, uma comoção tão intensa quanto à provocada pelo próprio labor poético ou ficcional. Isso não acontece, pelo simples fato de que os recursos da literatura são suficientes para produzir apenas respostas individuais, não a tão desejada resposta coletiva. As únicas ferramentas capazes de provocar a comoção social são as da política.

Quê? Você está torcendo o nariz para a palavra política? O folclórico Afrânio Coutinho escreveu mil vezes em mil artigos:

A vida literária brasileira não é muito limpa. Nela dominam a intriga, o espírito de capela, as rivalidades, a inveja aberta ou velada, as competições mesquinhas e as ambições pessoais. Tudo gira em torno do personalismo. Da glorificação de uns, da destruição de outros. Raramente a sinceridade é o combustível das atividades. No Brasil a vida literária suplanta a própria literatura. Enquanto a literatura brasileira denota grande pobreza de obras, é muito rica em figuras curiosas, carismáticas, pitorescas e espirituosas. Os escritores brasileiros são exímios na manobra de bastidores. Por meio do elogio mútuo, da troca de favores e da bajulação, eles conseguem êxito no domínio da vida literária

Estava o crítico errado? Claro que não. Mas o tom virulento de seus artigos denotam espanto e nojo, que por sua vez denotam a mais pura ignorância das leis perversas que sempre regeram a vida em sociedade e a política. As mesmas leis que, até então ocultas, foram expostas à luz do dia por Marx, Darwin, Nietzsche, Freud e tantos outros. Revelar que na vida social literária - sejamos francos, na vida social em geral - dominam a intriga, o espírito de capela, as rivalidades, a inveja aberta ou velada, as competições mesquinhas e as ambições pessoais... Ora, essa revelação é tão surpreendente quanto apontar para o sol e afirmar que nosso planeta gira em torno dele.

Hoje não é novidade para ninguém que a comunidade literária, assim como todas as comunidades humanas - a científica, a médica, a cinematográfica, etc. - é sustentada quase que exclusivamente por laços instintivos e afetivos. A literatura, apesar de exigir disciplina e alto poder de raciocínio abstrato de quem a pratica, é motivada e realizada muito mais pela paixão do que pela razão. Sendo assim, não é de espantar que a amizade, o amor e o rancor sejam determinantes na consagração ou na avacalhação de livros e escritores. O reconhecimento público é fruto mais da política do que apenas da qualidade literária. É claro que quando há, além do talento político, também a qualidade literária, o trabalho da política fica muito mais fácil.

Depois desse rápido abrir de olhos para o fato de que o mundo das letras não está povoado de anjos, mas de mamíferos raciocinantes de todos os tipos - éticos e antiéticos, dignos e indignos, talentosos e medíocres, geniais e estúpidos, e as combinações possíveis: geniais e antiéticos, dignos e medíocres, etc. -, vamos às três formas naturais de reação a esse estado de coisas, por parte de quem se sente abandonado e incompreendido pela opinião pública. Se você escreve bons livros e jamais foi incluído nas listas de final de ano e nas antologias críticas, você tem o dever de:

1. Verificar se seus livros são mesmo bons. Reavaliar sua obra, procurar descobrir se ela realmente tem, para o resto da sociedade brasileira, o mesmo valor que tem para você.

E o direito de:

2. Falar diretamente com os formadores de opinião: os juízes de concursos literários, os jornalistas, críticos e escritores que participam das enquetes ou organizam antologias. Chamar sua atenção, mostrar a eles que você e sua obra existem, ter voz ativa na comunidade.

3. Pôr em xeque o próprio cânone provisório estabelecido por essas enquetes e por essas antologias. Tentar subverter as regras do jogo, começar a impor seu próprio gosto pessoal, retirar a autoridade dos formadores de opinião que participam de enquetes ou organizam antologias. Afinal, quem foi que lhes deu o direito de dizer quais livros devem ser lidos e quais não?

Como escritor, por temperamento gosto mais da primeira e da terceira alternativa. Reavaliar minha própria obra diante das últimas oscilações na bolsa de valores literária é algo que já se tornou habitual na minha vida. Mas o resultado de todos os balanços pessoais tem sido sempre o mesmo: continuo não duvidando da qualidade do que escrevi e publiquei. Essa crença me leva freqüentemente a dar o passo seguinte, que é esvaziar, sempre que desfavorável ao meu trabalho, o próprio cânone provisório estabelecido pelos formadores de opinião. A segunda alternativa, apesar de bastante legítima como tática de defesa contra os golpes baixos e perversos que o instinto de sobrevivência vive aplicando em toda parte, nunca me apeteceu. Como escritor, não condeno quem a pratica. Mas, como formador de opinião, detesto ser abordado nesses termos. Esse procedimento eu considero política de baixa qualidade.

Você certamente irá perguntar: e a modéstia? E o nobre silêncio diante das injustiças perpetradas pela massa insensível? Não são alternativas? Na minha opinião a modéstia (a verdadeira ou a falsa) não é alternativa a ser considerada, a menos que o autor negligenciado não viva neste mundo, mas apenas no espaço multiforme e confortável de sua literatura, ou seja, na região ideal de sua mente, para a qual a opinião pública, por ser externa, não faz nenhuma diferença. Pode até ser difícil de acreditar, mas existem autores assim. Eu os invejo."


Leia o texto integral, e muito mais, no Rascunho.

Escrito por Andréa del Fuego às 11:51 AM
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...

"A esperança (spes) é uma alegria instável, nascida da idéia de uma coisa futura ou passada, de cujo êxito, em certo grau, duvidamos.

O temor (metus) é uma tristeza instável, nascida da idéia de uma coisa futura ou passada, de cujo êxito, em certo grau, duvidamos."

'Ética Demonstrada à Maneira dos Geômetras', Baruch de Spinoza


Interessante pensar nas paixões, ou afecções como gosta o filósofo, com simetria. Eis a simetria de Spinoza, esperança e temor estão no mesmo eixo, na mesma barra de ferro, é o mesmo objeto que nos torna instáveis.


Henri Cartier-Bresson

Escrito por Andréa del Fuego às 11:45 AM
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...

Risquei.


foto: Helen Levitt

Escrito por Andréa del Fuego às 03:51 PM
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Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!


foto: Helmut Newton

Escrito por Andréa del Fuego às 01:11 AM
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