Andréa del Fuego


Gira

Nunca vem, quando vem, vem fraca. Meninota me disseram que adulta eu ia desenvolver mediunidade. E como?  Sou rádio de pilha minguada, não sintonizo a voz. Porque não recebo, não posso girar a saia, acender um pito. Fico de assistente, chego a ter bondade antes de entrar no centro, mas pego os nomes que quero perto e deixo no bolso do avental. Vai que a cigana lê.

Fico ali entre o médium e o consulente. O pai-de-santo recebe uma cigana ruiva e gorda, ele é magro e se senta feito obeso num banco miúdo; ajeitando as dobras do outro mundo.

Faço de um tudo pra traduzir o que diz à moça. Anoto os banhos e as preces. Ela é noiva e quer que um fulano, casado, a esqueça; e rápido, está sem paciência. É a primeira vez que pedem pra afastar e não juntar, disse a cigana.

É que afastando ela queria unir, matemática enrolada, raiz de três.

Quando a última foi atendida — só vai moça no terreiro — pedi pra cigana ver minha causa. Ela foi dizendo que me faltava concentração nas sessões, que faltava disciplina, constância. Achei que quem falava era o cavalo e não o cavaleiro. Concordei com aquela mistura de magro com gorda e acendi as velas roxas, junto com a batata doce.

Vou levando.

O pai-de-santo é meu marido, culpa minha. Um dia o levei no centro pra benzer, mandaram desenvolver, fazer a cabeça; justo ele sintoniza a voz. Agora faço a ponte entre ele e moças que querem homem. Num centro, o que se pede é a volta de alguém, eu inclusa. Meu marido, de cigana nos ombros, faz voltar até a memória. Sim, é pra ele enquanto aparelho que peço pra outro homem vir me buscar. Ele de nada se lembra depois que sobe a cigana, e me agradece.

Pedi pra conhecer o que impedia minha fuga e ela veio. Veio, aqui no centro, a esposa do amante que não me larga nem me toma. Perturbada, veio pedir pra cigana que eu, logo eu ali ao lado, saísse do caminho. Ri. Sabe quando? Nem quando o pai-de-santo é o marido da chaga dela, nem quando eu mesma é que escrevo o despacho feito com meu nome.

Meu prazer é ver fazer e desfazer; quando a fé não é minha, desconfio do milagre.



foto: Elliott Erwitt

(+ em Escritoras Suicidas)

Escrito por Andréa del Fuego às 12:21 PM
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"A mulher é o ser que projeta a maior sombra ou a maior luminosidade em nossos sonhos. A mulher é fatalmente sugestiva; vive uma outra vida além da sua; vive espiritualmente nas imaginações que ela obseda e fecunda." (Baudelaire)



foto: Louis Faurer

Escrito por Andréa del Fuego às 12:05 PM
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Trecho de Rosa Monteiro em 'A louca da casa', Ediouro.
(enviado por Xico Santos)



"O caso é que havia uma senhora, que vamos chamar por exemplo de Julia, que morava em frente a um convento de freiras enclausuradas; o apartamento, num terceiro andar, tinha uma varanda que dava para o convento, uma sólida construção do século XVII. Certo dia Julia experimentou as rosquinhas que as freiras faziam e gostou tanto que se habituou a comprar uma caixinha todos os domingos. A assiduidade de suas visitas levou-a a travar uma certa amizade com a Irmã Porteira, que ela naturalmente nunca via, mas com quem falava através da porta giratória de madeira. Conhecendo os rigores da cláusura, certo dia Julia contou à Irmã que morava bem ali em frente, no terceiro andar, naquela varanda que dava para a fachada; e que não vacilasse em pedir sua ajuda se precisasse de qualquer coisa do mundo externo, como levar uma carta, ou buscar um embrulho, ou fazer algum outro favor. A freira agradeceu e as coisas ficaram assim. Passou um ano, passaram três anos, passaram trinta anos. Certa tarde, Julia estava sozinha em casa quando bateram na porta. Abriu e se deparou com uma freira pequenina e anciã, muito limpa e enrugada. Sou a Irmã Porteira, disse a mulher com uma voz familiar e reconhecível; anos atrás você me ofereceu sua ajuda se precisasse de alguma coisa de fora, e agora eu preciso. Pois não, respondeu Julia, diga. Queria lhe pedir, explicou a freira, que me deixasse debruçar-me na sua varanda. Estranhando, Julia fez a anciã entrar, guiou-a pelo corredor até a sala e foi para a varanda com ela. Lá ficaram as duas, imóveis e caladas, observando o convento durante um bom tempo. Afinal, a freira disse: É muito bonito, não é? E Julia respondeu: Sim, muito bonito. Dito isto, a Irmã Porteira regressou para o seu convento, provavelmente para nunca mais tornar a sair. Cristina Fernández Cubas contava essa belíssima história como um exemplo da maior viagem que um ser humano pode realizar. Mas para mim é algo mais, é o símbolo perfeito do que significa a narrativa. Escrever romances implica atrever-se a completar o monumental percurso que tira você de si mesmo e permite se ver no convento, no mundo, no todo. E depois de fazer esse esforço supremo de entendimento, depois de quase tocar por um instante na visão que completa e que fulmina, regressamos mancando para a nossa cela, para o encerro da nossa estreita individualidade, e tentamos nos resignar a morrer."



foto: Fred Stein

Escrito por Andréa del Fuego às 07:23 PM
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Nego tudo

Tô aqui na minha vidinha quando chega email de Cristiane Lisbôa, queria saber se eu faria um livro pela Fina Flor. Comemoramos meu sim com espumante na casa dela, essa borbulhante pessoa.

Vasculhei arquivos, abri gavetas, tirei o pó das frases e surgiu 'Nego tudo', que nasceu deste blog.

Então vaguei procurando imagens, e mais uma vez o mundo blog me extasia. Descobri o Lacuna Inc., de Erica Valente, a Chloè. Deu nervoso de quem se apaixona: será que mora longe? Será que topa ilustrar o livro?

Comemoramos o sim dela na casa da Cristiane Lisbôa, à tarde, com chá e bolo de fubá.

Nunca achei que pudesse ser tão sereno editar um livro. Serenidade de uma pérola, não descasca, e brilha que só.

O livro será lançado agora, em dezembro (faça figas): assim que sair quente da gráfica, entraremos noite adentro batizando livro por livro; um nunca será como o outro. Espumante ao amanhecer. Fina Flor é foda e não desbota.




capa: Erica Valente

Escrito por Andréa del Fuego às 12:02 PM
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O site Memória Viva é um achado pela internet. Agora ele traz algumas edições da revista O Cruzeiro , aquela em que Rachel de Queiroz assinava a coluna "Última página", e Millôr Fernandes a "O Pif-Paf" com o pseudônimo Vão Gôgo.

O primeiro número nasceu em novembro de 1928; abaixo, trecho do editorial e um texto sobre São Paulo.




"... Uma revista, como um jornal, terá de ter, forçosamente, um caracter e uma moral. De um modo generico: princípios. Dessa obrigação não estão isentas as revistas que se convencionou apelidar de frívolas. A funcção da revista ainda não foi, entre nós, sufficientemente esclarecida e comprehendida. Em paíz da extensão desconforme do Brasil, que é uma amalgama de nações com uma só alma, a revista reune um complexo de possibilidades que, em certo sentido, rivalisam ou ultrapassam as do jornal. O seu raio de acção é incomparavelmente mais amplo no espaço e no tempo. Um jornal está adstricto ás vinte e quatro horas de sua existencia diaria. Cada dia o jornal nasce e fenece, para renascer no dia seguinte. É uma metamorphose consecutiva. O jornal de hontem é já um documento fóra de circulação: um documento de archivo e de bibliotheca. O jornal dura um dia. Essa existencia, tão intensa como breve, difficulta os grandes percursos. É um vôo celere e curto. O jornal é a propria vida. A revista é já um compendio da vida. A sua circulação não está confinada a uma area traçada por um compasso cujo ponteiro movel raro pôde exceder um círculo de raio superior á distancia maxima percorrivel em vinte e quattro horas. A revista circula desde o Amazonas ao Rio Grande do Sul, infiltra-se por todos os municipios, utilisa na sua expansão todos os meios de conducção terrestre, maritima, fluvial e aérea; entra e permanece nos lares; é a leitura da familia e da visinhança. A revista é o estado intermedio entre o jornal e o livro..."

"... É pelo habito de modelar o barro que se chega a bem esculpir o marmore. Esta revista será mais perfeita, mais completa, mais moderna amanhã do que é hoje."





A côr de São Paulo
Guilherme de Almeida

Poetas estrábicos - um olho em Londres, outro em São Paulo - têm cantado esta cidade em toda a gamma do cinzento. Vêem cinza neste céo de redoma que guarda a fuligem dos bairros trabalhadores, cinza nesta garôa bohemia, cinza nestes asphaltos e nestas pedras, cinza nestes telhados de ardosia, cinza nestes cerebros tristes. Cinza: côr do tédio, côr do spleen. E concluem: São Paulo é melancólico. É Bugres, em cujos canaes de nenuphares doentes Rodembach cantou e morreu como um cysne...

Mas - ah! - o ponto de vista desses Jeremias daltonicos do Parnaso é baixo demais para estas colinas historicas espetadas de fura-céos. Pégaso, que elles cavalgam quando querem descortinar, julgar e lamentar, está velho e pesado: o seu vôo parnasiano não passa da primeira cornija de granito da cathedral gothica... Se, em vez do cansado Bucephalo alado, tivessem a coragem e o espirito de domar um avião, e, principalmente, se não fossem assim tão vesgos, ao olharem, lá de cima, de uma altura sufficientemente moderna, a sua cidade cá embaixo, de certo mudariam de opinião. E se possível a um sêr timido e rachitico ficar alegre a 800 metros de altura, teriam os bons hypocondriacos um sorriso claro de satisfação. Curados do seu daltonismo e da sua neurasthenia, ficariam sabendo que São Paulo não é cinzento: São Paulo é vermelho. De um vermelho fôsco de tijôlo.

A cidade que constróe uma casa de duas em duas horas, a cidade que se estende e se avoluma e sóbe, num record assombros, a capital da terra rôxa, veste, para os olhos limpos e entendidos que sabem vêr, uma "toilette" que Lanvin ou Vionnet descreveriam assim: "Vestido de esporte em Jersey ‘brique dégradé’, cinco tons..."

"Brique" - côr de construcção. Côr dos cubos de terra cosida que se apinham, das telhas acolhedoras que se imbricam, dos vergões que o progresso abre nas glébas uteis, da poeira que erguem na estrada as modernas bandeiras de tractores e caminhões... Côr activa do trabalho, côr alegre de construcção. Côr com que o sol edifica o dia e fabrica a noite. Tijôlo - côr de São Paulo...


Para mais, aqui.

Escrito por Andréa del Fuego às 12:18 PM
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Minha vista é cansada porque olhos negros absorvem mais. Os claros refletem e quem os encara tem de volta a própria luz; já os negros lidam com a própria força e a do outro, derramada nos furos da face. Duas esferas em que não se pode a olho nu ver as estrias da córnea, as veias da cor. Daí que a miopia me descansa, aberta feito guarda-sol, alastrando o foco preu não ver as linhas enfileiradas.



foto: Henri Cartier-Bresson

Escrito por Andréa del Fuego às 09:47 AM
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Pára; devagar, mas pára.


foto: Grace Robertson

Escrito por Andréa del Fuego às 11:21 AM
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Papel Assinado, Cerimônia e o Complexo da Princesa

(crônica publicada na extinta coluna Centrífuga do Bol)


A mocinha acorda e tem azia. Ela prepara o casamento. A vizinha da costureira a conhece pela assiduidade em que vai acertar a barra do vestido. Cria um repertório de respostas ao por-que-isso-e-não-aquilo às amigas, mãe e sogra que telefonam o dia todo.

A neurose a leva ao cabelereiro, dias antes, pra definir a graduação do fixador que impedirá os fios de se rebelarem ao penteado; fixado ou não, cafona.

Filha de quem chamar pra ser a dama de honra? Aquela criatura engomada dentro do vestidinho bufante com mais soberba que a noiva.

A princesa prepara o espetáculo de sua vida, o casamento é a chance de permitir que parentes e amigos admirem-na, sem achá-la ridícula, vestida de fada. Isso na melhor das hipóteses, muitas se vestem de Fusca branco.

O pingüim espera no palco, gotejando, ele se questiona sobre o que o faz estar ali; independe do amor, questão de auto-imagem. Não à toa, é ninado na rede da estabilidade, suspirando pelo dia de hoje ser igual ao de ontem. Fica em cima da geladeira.

A noiva entra com o pai e percorre o corredor que termina no altar. Os passos são coreografados com os do moreno de rabo-de-cavalo e câmera de vídeo no ombro. Ela não olha pra platéia, só para o olho eletrônico que perpetuará seu ápice.

O padre começa o discurso, todos preferem calarem-se para sempre a dizer algo contra, os noivos se beijam nervosos, alianças trocadas. O ímpeto de ambos corrrerem para os parentes é cortado pela produção do vídeo que o Brasil não verá. Ela cumprimenta, o noivo espera, um por vez; só há uma câmera e tudo deve ser registrado.

Não me venham com essa de que o momento serve para unir as famílias. Balela. Os encontros naturais são insubstituíveis quando o objetivo é a empatia.

Fofocas e pragas são jogadas ali mesmo no banco da capela, vêm do azedume da tias solteiras, as casadas sem sexo, moças sem rumo amoroso, rapazes tímidos, primas do interior.

Desejando, rejeitando, todos querem passar pelo corredor e pegar o diploma. Certificados de que estão nos conformes, nas expectativas, no protocolo.

Casal que dá satisfação ao Estado e à Igreja dá o primeiro passo para a invasão de hábitos burocráticos embaixo do teto comum. O cartório salienta obrigações e punições, a igreja a conduta e a finalidade da união.

Amor é sem caneta, padre, platéia.

Há casos e casos, é fato, por isso essa crônica é parcial.


foto: Robert Adams

Escrito por Andréa del Fuego às 08:36 AM
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O texto que indico é longo, sugiro impressão e chá pra degustar umas das mais fascinantes teorias do universo:

"O universo vai acabar; saiba como a ciência nos permite uma fuga espetacular.

O universo está fadado a terminar. Antes que isso ocorra, uma civilização avançada seria capaz de escapar para um universo paralelo através de um "buraco de minhoca"? A idéia parece coisa de ficção científica, mas é consistente com as leis da física e da biologia. Eis como realizar essa proeza."

Confira.


Escrito por Andréa del Fuego às 08:24 PM
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Nego tudo.


foto: Elliott Erwitt

Escrito por Andréa del Fuego às 11:30 PM
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