Andréa del Fuego


Engradados

Dagomir foi até o depósito pegar mais cerveja, entrou um grupo de escritores para comemorar o prêmio que um deles recebeu. Muita grana. Dava pra comprar um carro popular. Dava pra fazer bem feitinho três cômodos pra cunhada que chegou de Urubu. Dava pra pagar a cirurgia da boca e trocar os dentes sem cálcio por porcelana de primeira.

Dagomir ouvia a conversa daquele povo e sentia-se inferior. Fazia o que qualquer outro corpo pode: carregar caixas, abrir garrafas, botar o lixo na rua. Mas gargalhar como aquela mocinha de vestido florido, nunca. Abrir a boca daquele jeito depende da abertura dos ombros, da envergadura do esqueleto, do cálcio na boca.

Conhecia os livros de cada um de tão alto que falavam deles, sempre os últimos a saírem do bar. Quando lançavam obra ali, às vezes ganhava um exemplar. Lia e relia.

Dagomir não encontrava as garrafas que estavam debaixo do nariz. Pegou pilhas de anotações guardadas num balde que um dia foi de maionese. Amarradas por barbante, lembravam processos judiciais. Sujeito subiu com aquilo na bandeja no lugar das cervejas e foi até a mesa dos ilustres.

— Me fariam um favor?

A mesa aquietou-se.

— O que é, Dagô?
— Queria que um de vocês fizesse um livro disso aqui pra mim, guardo há anos.

Uma escritora acendeu a cigarrilha, outro atendeu o celular, um cronista foi ao banheiro.

— Está pronto. Só colocar meu nome: Dagomir da Conceição.

— Qual seu estilo? — debochou o poeta.
— O senhor diz o que está escrito? Tem assim: "três cervejas e dois bolinhos", "quatro Coca-Colas e um prato de amendoim", "um Free e caixa de fósforos", de tudo um pouco.

A mesa ao lado solicitou o garçom, ele foi atender. Os escritores cogitaram trocar de bar, cadê a porra da cerveja? Um dos escribas, depois de rápida análise dos originais, chamou o rapaz de volta.

— Dagomir, esquece.
— Por que?
— Ora, isso não é literatura!
— Mas literatura não é um monte de palavras que vocês tiram da boca da gente, botam lá e pronto?

O cronista perdeu a paciência.

— A cerveja, caralho!

— Esse aí pode ser o título: "A cerveja, caralho!".



foto: Terry O'Neill

Escrito por Andréa del Fuego às 04:41 PM
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Claudinei Vieira, clássica presença e idealizador de encontros literários, acaba de lançar um outro espaço em seu portal, o CONVERSAS NA ESQUINA. Trata-se de uma entrevista em vídeo e áudio feita na charmosa Livraria da Esquina. Fui a cobaia. E que prazer foi o meu. Espie.

Escrito por Andréa del Fuego às 11:21 AM
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Escritoras Suicidas é um novo site de literatura. Idealizado por Eliana Pougy, editado por Silvana Guimarães e Carola Saavedra; ilustrado por Löis Lancaster. Vem ver.

Escrito por Andréa del Fuego às 08:44 AM
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Referendo

Postei outro dia que sou a favor do SIM, e não expliquei, achei que não precisasse. Enfim, faço das palavras de Antonio Prata, as minhas.

Por que SIM?

Antonio Prata

"Ontem fui ao xerox da PUC e ouvi um aluno dizer pro outro que iria "votar NÃO, claro, porque esse referendo era o primeiro passo pra uma ditadura que o LULA estava preparando e que se o SIM ganhasse ele iria comprar um lança pregos numa loja de construção". Aí, bom, percebi o tamanho da encrenca e resolvi botar a boca no mundo.

Sei que você, mesmo que pense em votar NÃO, riu da frase do biruta da PUC. Acontece que essa é só a posição mais extremada de alguns dos argumentos que estão rolando contra o desarmamento. Se tiver paciência, boa vontade e estiver realmente interessado no assunto (assunto que mata 40 mil pessoas por ano), por favor, continue a ler esse e-mail. Vou tentar refutar alguns dos argumentos do NÃO, enquanto falo das razões para se votar SIM. (O argumento da ditadura do LULA, acho, não precisa de resposta, né?)

Legítima defesa: muitos defensores do NÃO dizem que o Estado quer tirar do "cidadão de bem" (depois falamos desse cidadão aí) o direito de se defender. Se os dados mostrassem que uma pessoa armada está mais protegida do que uma desarmada no caso de um assalto, eu concordaria. Acontece que, num assalto, uma pessoa armada tem 57% mais chances de ser assassinada (Dados do ISER, um grande instituto de pesquisa do Rio). Segundo o FBI, pra cada vez que o "cidadão de bem" se salvou sacando uma arma contra o bandido, 187 vezes o bandido levou a melhor.

Estão me tirando um direito!: Sim, meu caro, estão te tirando um direito, mesmo! A vida em sociedade é assim, a gente abre mão de algumas liberdades individuais em prol da coletividade. Há mais de cem anos, se você não gostasse desse meu e-mail, poderia me chamar pra um duelo. Era legal. E eu, como não poderia amarelar, teria que aceitar. Aí isso foi proibido. Era o Estado metendo seus terríveis tentáculos na vida privada? Era! Que bom. Até umas décadas, se eu descobrisse que minha mulher transou com outro cara, poderia matar os dois e ser absolvido alegando "legítima defesa da honra". Agora não posso mais. Tiraram um direito meu?! Sim, tiraram.

Cheguei a ouvir de um cara inteligente que ele iria votar NÃO porque sua geração havia cantado pelas ruas "É proibido proibir". Bem, imagino então que depois do referendo todos aqueles que apóiam o NÃO sob esse argumento anarquista vão abolir a constituição, a polícia, o Estado e sairão todos pelados cantando Geraldo Vandré pela Paulista. Quem diria que um dia veríamos, lado a lado, Foucault e Cel. Ubiratã, Henry David Thoreau e Erasmo Dias, Thomas Jefferson e Fleury...

São 40 mil mortes por ano. Os EUA bombardearam o Iraque e ainda não conseguiram tanto em mais de dois anos. Vamos deixar que isso continue porque nosso imenso narcisismo não permite que nos "tirem um direito"???

Vão desarmar o "cidadão de bem" e não os bandidos: Bem, chegamos a esse tópico complexo. O cidadão de bem. Hum... Hum... Vamos lá. Sabe quantos por cento das pessoas são assassinadas pelos bandidos? 5%, segundo a Secretaria Nacional de Segurança Pública. Ou seja, 95% das mortes por arma de fogo no Brasil são causadas pelo... Cidadão de Bem! Mais ainda: se você tem uma arma pra se proteger daquele ladrão que veio lá de longe te matar, saiba que em 60% dos crimes por arma de fogo, vítima e agressor se conheciam e moravam a menos de 500 metros um do outro.

O problema maior não é a bandidagem e o desarmamento não vai, nem pretende, resolvê-lo. O problema é que as pessoas estão brigando e estão armadas. A diferença entre o olho roxo e a morte é a arma de fogo.

Outra coisa: 90% das armas apreendidas pela Polícia Federal nos últimos dez anos nas mãos dos bandidos foram, primeiramente, compradas pelo "cidadão de bem". Quer dizer, o "cidadão de bem" vai feliz com a família ao shopping, domingão, chinelo rider no pé. Aí entra na Bayard, compra seu 38 e volta pra casa, sentindo-se o próprio Bruce Willys. O "cidadão de bem" é assaltado, levam a sua arma e pronto, o três oitão do Batman está nas mãos do Coringa...

Não vai adiantar, ninguém respeita lei no Brasil, nem adianta: É claro que vai ser possível comprar arma no mercado negro, assim como já é. Mas vai ser mais difícil, e mais caro também. Se o argumento é que nenhuma lei "pega" no Brasil, então voltamos pro tópico anterior, queimamos a constituição e vamos lá, pelados, cantar Geraldo Vandré...

O efeito Fagner: "Esses artistas que tão fazendo campanha pro SIM são os mesmos que falaram pra votar no LULA. Agora olha só". É uma maneira curiosa de olhar as coisas. Sob a ótica de "toda unanimidade é burra", fazer sempre o contrário da maioria. Nelson Rodrigues, quando escreveu a frase acima, não imaginava que ela iria, também, virar uma unanimidade e, assim, tornar-se burra. É a mentalidade Revista Veja. Não importam muito os fatos, os dados, as questões que estão sendo debatidas. Se uma boa parte do povo acadêmico-artístico-de-esquerda apoiar, soy contra. Soy contra porque quero ter a opinião supostamente mais inteligente, soy contra porque a esquerda tá fora de moda, soy contra porque o Caetano é chato, soy contra porque não tenho saco de ver o Zé Celso pelado, soy contra porque soy contra, que saco!

Votar NÃO não protege a sua vida nem a da sua família, pelo contrário. Votar NÃO não abala as bases do ESTADO rumo a um mundo mais livre. Votar NÃO não é a opção de quem "vê mais longe do que esses chatos da esquerda". Votar não é garantir que o Brasil continue a ser o país em que mais gente morre assassinada por armas de fogo em todo o mundo (UNESCO). Votar SIM nos tira desse caminho? Há muitas razões para se acreditar que SIM. E nenhuma que garanta que NÃO.

Boa sorte para nós todos."

Escrito por Andréa del Fuego às 05:43 PM
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Corredor Literário na Paulista

Semana que vem começa o Corredor Literário na Paulista, de 24 a 30 de outubro. Mega evento com mais de 400 possibilidades literárias aos passantes da avenida Paulista.

Estarei dia 24, segunda-feira brava, às 18:00, no Espaço Cultural da Caixa. Fica dentro do Conjunto Nacional, Paulista, 2073. Ao lado do café. Falando sobre o "Minto enquanto posso", a vida, os furacões e as estiagens; e falar do "Nego tudo", que é praticamente um filho deste blog e deve sair em dezembro pela Fina Flor (darei detalhes em breve). Vou ler contos bons e curtos, papear com quem se aproximar.

Durante o corredor vai ter Santiago Nazarian, Laerte, Fernando Bonassi, Frederico Barbosa, Marcelino Freire, Indigo, Mário Bortolotto, Tereza Yamashita, Mirisola e muito mais. Veja aqui a programação completa.


Escrito por Andréa del Fuego às 11:31 AM
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Clube do Alicate

Salão Dafne.

Nele, em horário bancário, pode-se encontrar três manicures, duas cabeleireiras que maquilam e uma profissional que mexe com química; é com ela a balaiage, permanente, alisamento e o acaju das senhoras.

Prometiam o efeito das moças dos cartazes de xampu. No menu de possibilidades estavam Betty Faria e Natália do Vale para casamentos. Priscila Fantin para batizados dominicais.

Potes de plástico amaciavam cutículas em água morna. Cabelos se amontoavam debaixo das cadeiras. Secadores dilatavam fibras capilares esticando cachos e fiapos tingidos. Acetona, novelo de algodão, palitos. Chamavam os esmaltes pelo nome: Gabriela, Mônaco, Maçã do Amor e Jade eram os que mais cedo terminavam.

Depilação era com um quilo de açúcar, um limão e uma xícara de água aquecidos até o limite do fogão. Depois do serviço, as placas de cera com pêlos, fósseis frescos de mulher, eram deixadas numa caixa de papelão que se fazia de lixo. Assim que a cliente dava a nuca, a caixa seguia para a cozinha onde também se filtra o café. As placas, fervidas e coadas, voltavam a sapecar outras coxas.

— Não sei por que a gente não pode falar que usa de novo, a gente ferve, mata tudo.

O salão se movimentava à tarde, receitas de pudim eram arrancadas das revistas de fofoca. O locutor da rádio lia carta enviada por viúva. A chuva tinha estiado, sombrinhas escorriam a água encostadas ao portão. Telefone tocou, alguém desmarcando o pé.

— Neide, teu horário vagou, cê podia fazer minha mão. Hoje não vem ninguém mais pra mim. Com essa chuva o povo tem medo de perder a escova.

Cleuza sentou-se na cadeira e esticou o braço para a colega avaliar o serviço.

— Vou de Areia — disse Cleuza.

— Areia acabou. Esse aqui todo mundo tá usando, o Paris.

Um rapaz de maleta preta entrou procurando a dona.

— No que posso ajudar?

Ele vinha em nome da Alitex. Abriu para Diva, a dona, um mostruário de alicates. Cleuza e Neide interromperam a conversa focando o brilho das peças nas mãos do rapaz.

— Você fica com o mostruário, sua cliente escolhe o alicate e ele fica guardado no seu salão, e gravamos o nome da pessoa como nas alianças. É um casamento do salão com a cliente.

— Qual a garantia de ela deixar o alicate aqui no meu salão?

— Ficando aqui, o alicate estará sempre na estufa, e a profissional não usa com outras o instrumento. Além de manter as lâminas sempre afiadas, deixamos um amolador. Suas clientes entram para o Clube do Alicate: quanto mais sócias a manicure conseguir, mais prêmios podemos dar pra senhora. Com cinqüenta alicates você vai pra Fortaleza em ônibus-leito, as manicures ganham esmaltes.

Diva chamou suas meninas uma a uma para que verificassem a proposta. Entusiasmadas, ficaram com o mostruário. Dia seguinte, Neide seduziu uma mãe.

— Bom que não fica em casa um objeto cortante perto das crianças — disse à cliente.

Neide tinha que providenciar sua própria estufa, trouxe um forninho elétrico no qual passou a esquentar as Alitex e a marmita. Em pouco tempo Diva foi pra Fortaleza. Dois dias, um final de semana suficiente para uma ensolação a deixá-la uma semana em casa com vergonha do inchaço. O rosto era o próprio sol.

As meninas cuidaram do salão. Neide ficou com o caixa. O homem da Alitex apareceu no meio de uma terça-feira. De gravata, maleta e suor na camisa.

— Vim checar os alicates.

Ele saiu com alguns para amolar, outros para trocar e o telefone de Neide.

— Esse me tira dessa vida. Viu a gravata? Salmão. Gravata salmão é coisa de quem mexe com contabilidade, dinheiro.
Gardelhão, o nome do moço da Alitex, ligou numa manhã para o celular de Neide.

— Fica assim, te faço um desconto no lançamento se você tomar uma cerveja comigo na represa.

– E se as meninas perceberem?

– Percebe não.

Depois do encontro, Gardelhão aparecia uma vez por semana no Salão Dafne. Unhas lixadas, cutículas aparadas, verniz de refletir os dentes. Diva botou reparo.

— Gardelhão anda fazendo as unhas, daqui a pouco pinta o cabelo. Homem freqüentar salão é uma vergonha.

Neide dobrou os cintilantes e os metálicos de tanta associada ao clube que foi seduzindo. Um dia Gardelhão não apareceu mais. Desapareceu. Nada do Gardelhão. Deixou os alicates, o telefone da firma mudou, o celular pessoal dava infinitamente ocupado. Diva foi cutucar Neide, que mal soube camuflar o romance com o homem, foi ficando amuada, adoeceu, envelheceu.

— Mas é trouxa mesmo, acreditar em homem que a gente não conhece, tem que namorar alguém do bairro. Sem contar que todo mascate é casado. Escapou foi de uma, viu, Neide?

Escrito por Andréa del Fuego às 09:37 AM
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...

Há um ano eu estava chegando em Paris, onde fiquei 3 meses numa imersão na glória e a escuridão do Velho Mundo. No terceiro dia sonhei com a peste negra, no quinto eu era Maria Antonieta a caminho da guilhotina.

Foi a primeira vez que atravessei o Atlântico, o tenebroso. Todos dormiam no vôo, André inclusive. Eu fiquei assistindo o percurso da aeronave pela televisão. Você pode acompanhar a rota, ver por onde está passando e isso me absorveu. Um avião daquele tamanho desafiando o destino do homem ou indo pra ele. O homem veio do pó e ao pó voltará. Basta saber se o pó da volta pertence a este planeta, porque se ele tem permissão para tal afronta das leis, algo deve ter pra nós lá fora.

Percebi uma mancha mais escura no oceano; pensei, ali o mar é mais gelado, o avião passaria ileso por aquela mudança de temperatura? Não. Foi no exato momento da entrada na mancha escura, no azul mais sombrio que o avião despencou mil metros. Sabe o que é isso? Um quilômetro pra baixo, nem um elevador cairia tanto. Meu grito deixou todos mais assustados ainda. Um inglês me olhava com ódio, como eu podia externar o medo que todos faziam questão de conter?

Amanhecemos sobre Portugal, minha emoção era seca como quem já tinha chorado tudo. Quando o avião pousou aplaudimos o piloto, que na queda segurou nós todos e aterrissou feito borboleta, um mestre. Sem sair do avião notei a natureza dominada pela grama em volta da pista. A natureza em tons pastéis, chuva fina, eu sentia o frio de três graus e a fome de um leão. Entramos num ônibus que nos levou até a estação Montparnasse. De lá seria um táxi até o apartamento, se não pegássemos o concierge, dormiríamos no metrô, hotel nem em sonho.

Foi quando perdi a força da mão e a mala caiu bem numa esquina, ela ali, art nouveau imensa, feminina, soberana.

— André, a torre!


foto: André de Toledo Sader

Escrito por Andréa del Fuego às 11:53 AM
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A domicílio

1º de outubro

E tem mulher que fica melhor depois que lê Clarice Lispector, olhe pra mim! Acha que confiaria no que uma mulher diz? Aquela soberba de mulher solitária que se diz conhecer o universo porque se acha reflexo dele? Me economize! Mulher de diplomata mal comida, imagine um diplomata na cama.



2 de outubro

Se encontrar este diário fica a teu cargo mostrar ao meu pai estas palavras, se for tarde demais, deixe-as por favor em seu túmulo, como epitáfio. Se me permite sugerir, recorte com tesoura o trecho abaixo, assim ele verá com minha letra, mas só este trecho, obrigada.

São muitos os olhos que espiam, os que com eles selecionam presas e afagam à distância o encarcerado. São muitas as bocas que salivam, pelo desejo da carne e expulsão do veneno. São muitas as mãos que seguram o falo e estrangulam galinhas. São muitos os nãos, por coragem de tê-lo dito e atrofia da doação.



3 de outubro

Recebi um cartão postal da Fabiana, está na Espanha, mandou uma fotografia, fachada da Casa Milá. O que a Fabiana quer me mandando isso? Sabe que odeio essa arquitetura, essa coisa com movimento, meio arredondado, meio ondas de cimento nas sacadas, odeio mar, mulher chata, essa Fabiana! Me conheceu numa palestra e quer ser íntima, me agradar, não quero. Esse postal vai pro lixo.



5 de outubro

Não gozei na vida com menos sentimento que aflição. Vem aquela corrente esquisita, não vejo a hora que termine aquilo. Deus me livre algum homem que me queira "fazer mulher", aquela coisa melada, aquele cara colado. Mil vezes o homem egoísta que pouco se importa em quem penetra. Esse cara nunca vai te cobrar nada. Não estou aqui pra amar.



6 de outubro

Peguei dois pacotinhos de suco artificial, misturei ao leite vencido e fiz uma pastinha. As paredes estão borradas de pó sabor uva. Pintei com os dedos uns círculos, não, quase-círculos, quando ia terminar as esferas, botei uns traços cortantes, umas barras. Bonito. No fim deixei uma porção de quadrados, uma forma se sobrepôs à outra. O cheiro começa a incomodar, o leite estava morto. A uva do suco foi viva sabe deus quando.



7 de outubro

A sala está azeda. Não sinto enjôo, embora esteja numa embarcação. O apartamento dá umas balançadas. Não dá pra ir até o quarto, decerto lá estão a bússola, o mapa e um antigo marinheiro leitor de estrelas. Fala-se de estrelas com ternura, chegue perto de uma e verá uma usina nuclear de força tal a não dar rotação livre aos planetas. Estrela é um buraco. Pra que preservar tubarões? Só um design a menos. Reumáticos que arrumem outra cartilagem, outro hospedeiro.



8 de outubro

Pouco importa onde você projeta o amor que sente. Importa a projeção em si, ela é que te faz feliz. Você não precisa de uma tela pra projetar seu filme de amor. Qualquer muro serve. Projete sem pensar em que planície a imagem vai atingir. O que ama sempre cola. Por isso temos que nos libertar de quem se apaixona por nós. Essas bromélias rastejantes.



9 de outubro

Problema desse corredor é a dúvida que ele me deixa. Posso ir ao banheiro ou ao quarto. Um ou outro. Azulejos são frios, se me arrastar até lá, poderei me refrescar nas lajotas, fumar um cigarro que está num maço dentro do bolso de um jeans atrás da porta, os fósforos estarão juntos. Sempre gostei daquela fricção com cheiro de pólvora da madeirinha magrela. Até o quarto precisarei de mais músculos que me façam serpentear pelo chão.



10 de outubro

Estou debaixo da cama. Pra chegar até aqui minha perna teve que brigar com o carpete. Perdemos, eu e a perna. Descolaram os curativos, o local já estava verde, aquele estágio logo após o roxo das trombadas. A pele, tão fininha, se rasgou na quina da parede ao me virar do corredor pro quarto. Assim se envelhece, a pele vai se afinando, vai expondo a carne ao oxigênio. O fogo não se alimenta de oxigênio? O oxigênio se alimenta de carne.



11 de outubro

Alguém entrou no apartamento, até agora estou debaixo da cama. Não movi uma unha. Ouço passos, parecem de mulher, começa forte, termina leve. Não tocou a campainha, foi entrando. Telefone toca. Minha canela bate no estrado. Suo de dor. Quem entrou não diz nada, a ponta do lápis está frouxa, o telefone parou, será que a pessoa atendeu? Ouvi, ela disse "sim". É mulher, sabia.



Quarta-feira, 26 de dezembro de 2001

Laura, aqui é Fabiana, vi que jogou fora os postais que te mandei da Espanha, fiz questão de escrever em seu diário, herança que sua família deixou comigo.

Depois que a perícia fez o trabalho em cima desse teu caderninho, tua família não quis nem tocar nisso aqui. Eu me ofereci para guardar e sua mãe me entregou no dia da tua missa.

Não resisti, estou invadindo teu espaço covardemente. Escrever nele é como falar com você. Eu não ia deixar passar essa desfeita.

Por que jogar os postais no lixo, Laura?

Se escreveu até o fim, por que não revelou seu algoz? Bem-feito! Te encontraram imunda naquele quitinete.



foto: Robert Adams

Escrito por Andréa del Fuego às 09:00 AM
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"Seria melhor que tudo fosse deglutido e jogado fora. Pela prisão, tempo-prisão, mundo que começa no nosso portão. Talvez não valesse a pena a gente passear retrospectivamente. Sempre indica marcha à ré. Sou contra a autocrítica. O aproveitamento da experiência se realiza espontaneamente, sem necessidade de dogmatização. É que hoje tudo está brilhante."

"Não sei se você sabe como conheci Oswald. Ele leu coisas minhas, mostradas por Fernandinho Mendes. Teve curiosidade e quis me conhecer. Foi quase ao mesmo tempo em que conheci você. Na época do Movimento Antropofágico. Oswald: uma liberdade maior de movimentos e mais nada. Ele não me interessou mais que outros intelectuais conhecidos naquela época. Particularmente, eu me sentia mais atraída por Bopp, que possuía mais simplicidade, menos exibicionismo e, principalmente, mais sensibilidade."

Patrícia Galvão em cartas para Geraldo Ferraz no livro Paixão Pagu.


foto:submarino.com.br

Escrito por Andréa del Fuego às 12:04 PM
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Roma

Eram gêmeos, Alcides e Alcebíades.
Alcebíades queimava cem, duzentas folhas por dia. Alcides o incentivava com brochuras compradas em sebo. Alcebíades queimou caderno escolar, recibo de supermercado, até a certidão de nascimento. Tinha aflição dos papéis, tivesse neles o que fosse.

Apesar de serem feitos do mesmo bife que a mãe fincou o canino, eram independentes na intuição. Se um ateava fogo, outro ia atrás dos inflamáveis. As cinzas eram deixadas numa pira; no fino talco ígneo, os irmãos jogavam moedas como o fariam na Fonte do Desejo.

Filhos de um engenheiro habituado às cerimônias de confraria, os irmãos não se rebelaram à paternal autoridade. Mas, por conta de seus atos medicáveis, nunca foram de fato convocados a oferecer fidelidade ao grão-mestre.

Mulheres passavam ao largo das tentativas de aproximação. Teve uma que se casaria com Alcebíades, mas ter a certidão de casamento queimada descia fantasias escuras. Num dia qualquer ele botaria fogo nela se usasse um perfume amadeirado.

Após o almoço de domingo, a luz caminhando pela varanda, cascas açucaradas de laranja nas tigelas, Alcides levantava a taça de licor sangüíneo celebrando o Espírito Santo.

Alcides foi o primeiro a se livrar da câmara carnal, o outro ficou lá mais um tanto enrolado no cordão. No batizado se falava das profissões dos meninos, seriam dois desembargadores de alta estima, ilustrariam os jantares da cúpula nacional. Quando crianças, eram rosas como leitões.

Na adolescência as feições leitosas deram lugar às camadas de gordura, tendo como válvula de escape o couro cabeludo por onde gotejava o óleo das carnes. Exames laboratoriais nunca revelaram anomalias moleculares, as cadeias estavam impecáveis, assim como os ternos no closet.

Os pais sabiam de uma estranheza ou outra, mas nunca a inteireza dos fatos, os irmãos encontravam espaços secretos para suas manias feito antigo botânico e sua estufa no jardim. Fizeram faculdade, cortejaram moças pacatas, quem os visse, daria suas causas para que advogassem. A boa educação os vestia com fidalguice.

Na gravidez, a mãe sonhava com chaminés industriais enquanto os filhos ali dentro uniam dedos num pacto. Quando chegassem aos quarenta anos, a escada de madeira seria a contribuição de Alcides, com os dois alcançando a última plataforma, Alcebíades jogaria lá de cima fósforos acesos sobre a poça de comburente. Um ardor os botaria em febre, a escada viraria talco da pira, os gêmeos perderiam solvente, mas não o soluto. Defumariam.

Tudo isso pra dizer que os gêmeos queimaram a empregada. No português claro, não só defumariam como defumaram a Katinha. Mais que isso, incineraram a moça. Um convite para trabalhar na chácara da família a deixou feliz, fez as malas cantando. Amarrada numa cadeira debaixo de uma escada, os gêmeos no alto dela com os galões de gasolina e os fósforos.

Quem deu falta da mulher nem pensou em polícia, o fato deu em nada. Os gêmeos eram puritanos, o crime cristalino. Lábios finos eles tinham.

Um dia Alcebíades assumiu para Alcides a ternura fálica que sentia por Katinha. Guardou as cinzas da empregada, e num daqueles almoços de domingo, taça de licor levantada para o Espírito Santo, polvilhou o arroz-doce com os restos de Katinha.

— Me passe essa canela — pediu Alcides.


foto: Ernst Haas

Escrito por Andréa del Fuego às 03:12 PM
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Sou a favor do desarmamento, SIM.


foto: Elliott Erwitt

Escrito por Andréa del Fuego às 09:39 AM
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Gosto do barulho das correntes, me lembra tua chegada, preso, sem cílios. Tua coragem camuflada na calça amarrada por cadarço; o que mais gosto é ser enganada aos poucos. Ser esganada de leve, aos poucos. E arrastar a corrente no corredor do teu quarto, sem nunca entrar, só espiar tua coragem presa, entre a cama e a parede.


foto: Louis Faurer

Escrito por Andréa del Fuego às 10:30 AM
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Sirvo grandes damas. Nunca derrubei uma taça, só quebrei uma colher, porque era essa japonesa e de porcelana. Nos banquetes calo-me toda, falo com o manuseio das bandejas, digo que assim seja, obrigada, senhora. Sirvo há mais de doze anos; na bandeja fica meu terço, debaixo da saia outro, fora o terceiro que boto dentro da galinha, assada lá fora, no forno que não cabe dentro do casarão. Dessa noite não passa, mais uma que não me asseio, e boto sonífero no lugar do açafrão. Convivas dormindo sobre o prato, como eu na ponta da mesa o coração e a sopa de pão.


foto: Bill Brandt

Escrito por Andréa del Fuego às 05:46 PM
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Satyrianas, uma Saudação à Primavera

A Companhia de Teatro Os Satyros foi fundada na primavera de 1989. Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, fundadores da trupe, comemoram o aniversário de fundação com o evento “Satyrianas, uma Saudação à Primavera”.

A comemoração é uma vigília cultural com 78 horas de atividades ininterruptas, com início numa quinta-feira, às 18h00, e término num domingo às 24h00. Como? Com espetáculos teatrais, literatura, debates, música, poesia e frescor primaveril.

Aqui você confere toda a programação.

Amanhã, às 10h00, tem Café Literário: “O Lugar do Homem em Minha Obra”, com Clara Averbuck, Ivana Arruda Leite, Lúcia Carvalho, Maria José Silveira, João Silvério Trevisan, Lucius de Mello, eu e Verônica Stigger – Espaço Um.

Companhia de Teatro Os Satyros
Praça Roosevelt, 214
tel: (11) 3258 6345

Escrito por Andréa del Fuego às 10:40 AM
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LIVROS


Nego fogo





Engano seu





Nego tudo





Minto enquanto posso





juvenil


Sociedade da Caveira de Cristal





Quase caio





antologias


Os Cem Menores Contos
Brasileiros do Século






Fábulas da Mercearia





30 Mulheres que Estão Fazendo
a Nova Literatura Brasileira






Doze





69/2 Contos Eróticos





35 Segredos para chegar a lugar nenhum





Contos de algibeira





Capitu mandou flores





O Pequeno Príncipe me disse

BLABLAblogue





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