Andréa del Fuego


...

Sim, e muito.


foto: Jeanloup Sieff

Escrito por Andréa del Fuego às 11:43 AM
[   ]




...

Perto é o mais longe que posso chegar. Ninguém nota que fui, eu saio ficando; quando me movo estimulo tua ida, eis tua preguiça. Pra longe não muito talvez, nem isso, a temperatura do alto não me surporta, os dedos são estreitos para os anéis de saturno. Anel? Pulseiras escondendo o diagnóstico chinês, a pulsação do baço cruzou a do ovário direito. Os anéis de saturno não me apertam, nem eu os toco, são meteoros querendo rota, eu não a tenho. Passo o anel.


foto: Elliott Erwitt


Escrito por Andréa del Fuego às 12:18 PM
[   ]




Setembro

O sobrenome tinha quatrocentos anos, o corpo quarenta e seis e o vinho mais antigo da adega passava dos cento e nove. Somados corpo, sobrenome e vinho, tínhamos quinhentos e cinqüenta e cinco anos de credibilidade. Quem não confiaria num andar de vértebras alongadas pela disciplina matinal? Numa pele elástica e hidratada onde os sulcos naturais mais pareciam linhas propositais?

Blindava o espírito em divãs de couro contra os tiros da pobreza periférica. Nunca precisou trabalhar como trabalham os que precisam. Renda para pelo menos as próximas duas gerações, fazer alguma coisa fazia parte das instruções ouvidas nas sessões de análise.

Assídua dos eventos beneficentes, nas colunas sociais, vez ou outra, surgia seu rosto iluminado por bases fluidas em tom pastel. A família, ligada à política, mantinha-se nas esferas do poder sem escoriações ou escândalos que desse aos seus opositores fenda para a intriga dos bastidores. Pelas propriedades circulavam casamentos sólidos, netas esguias pela equitação, filhos solteiros namorando mulheres jovens, esquálidas e ricas antes dos trinta. Tudo corria serenamente há gerações, o vento fertilizava os jardins em calmaria.

Ela, Tetê, apelido dado pela babá, selecionava suas amizades como a selva o faz para seguir seus propósitos de evolução. Reconhecia pelo tom de voz as novas ricas que ingressavam aos grandes salões de pouco em pouco. Primeiro elas adentravam os estúdios onde seus maquiadores particulares trabalhavam, depois as lojas comprando meias como porcelana da dinastia Ming.

Muito agradável ouvir Tetê dizer obrigada. Agradecia com tal domínio que fazia quem recebia sua polidez oferecer um pouco mais. Balconistas davam descontos sem que ela pedisse ou precisasse. Manobristas dos restaurantes davam brilho aos pneus enquanto ela desfolhava um peixe ao molho de frutas.

Divorciada, mãe de um futuro economista, saiu da casa dos pais ao se casar para uma mansão construída por um renomado arquiteto. Para homenagear um antepassado, amante da botânica, a casa tinha a forma de uma flor. No círculo exterior ficavam os aposentos, cada um com dois andares; o mezanino de Tetê era uma sala de estudos da arte. Embaixo, a suíte se abria para um quintal privado onde apenas o habitante do cômodo tinha acesso visual e físico à Babilônia particular. Cada jardim era cercado por um muro arredondado desenhando uma pétala. Na corola da flor, as grandes salas, biblioteca e corredores labirínticos.

Tetê, numa segunda-feira de primavera, foi ter com o jardineiro sobre as formas que foram encomendadas dar aos ciprestes de sua pétala.

— Se quiser, tenho fotos pra você se basear.
— Não precisa, dona Tetê.

Gilberto era um topiário conhecido das grandes rodas, os jardins esculpidos por ele eram exibidos em festas dadas pelos pagantes. Com Tetê, Gilberto ganhou boa quantia pela discrição. As janelas permaneceriam cobertas pelas cortinas até o dia em que o jardineiro avisasse do término do trabalho.

— A senhora já pode abrir.

Antes de subir da varanda central ao quarto, pegou um espumante na adega, uma taça, alguns bombons de chocolate belga. Uma taça serviu para o banho, a segunda para a escolha da camisola no closet, a terceira para abrir, naquela manhã juvenil, o grosso manto que a agraciou com a visão de uma fileira de membros verdes e compactos. Os ciprestes só eram livres em seus livros, os do jardim eram obeliscos de pontas ovaladas. A folhagem densa não permitia olhos para dentro dos galhos grossos onde nasciam. Verde forte, Tetê tinha em volta do quarto uma cerca-viva de pintos vegetais.

No mezanino, abaixo da janela, uma mesa em jacarandá. Os livros de arte que lá jaziam foram parar no tapete, sobre a madeira nobre deitou primeiro almofadas, depois o corpo coberto por seda. Através do vidro, os arbustos a olhavam reprimidos nas formas fálicas. A resina incorruptível das árvores indo e vindo até a extremidade das folhas. Bebendo do espumante, entregue às almofadas, o vidro da janela a mantinha segura. Se por nada ele se rompesse, seu corpo cairia alguns metros até o chão.

Estavam perfeitos, eram membros eretos, grossos, extensos. Gilberto esculpiu até os vasos dilatados de um homem apaixonado. As cinturas masculinas antes da glande macia. Não eram iguais, o topiário a premiou com um mostruário de virilidade. Tetê entorpecida pelas taças, a manhã que se aquecia e as formas pulsantes, ali circulava sangue esmeralda. Um pé beijava o outro, encostou o rosto no vidro frio. Aqueles sexos enfileirados jamais descansariam, ficariam assim dia e noite, apenas de vez em quando sendo podados e aparados por Gilberto.

Tetê queria ser golpeada por violenta expulsão da seiva dos arbustos. Abriria a janela para que seu jardim espirrasse em seu rosto uma essência amadeirada de natureza. A latência do mundo vegetal a fazia espumar como o champanhe, os movimentos imperceptíveis pela incompatibilidade do tempo entre o homem e a flora.

Terminado o espumante, ela fechou a janela. Foi às compras naquela tarde, encontrou com as amigas numa casa de chá, recusou convite para o jantar de um empresário das telecomunicações que aconteceria em algumas horas.

Com a noite estrelada e a estação nupcial engendrando verão, ela se encontraria com seus homens e não mais pela janela, deitaria aos pés dos gigantes para lá debaixo mirar um céu viripotente. Com as pernas pinçava o caule, com as costas fazia cócegas no solo.

Nua, Tetê se enrodilhou na grama feito fio de cabelo na virilha do amante.

Escrito por Andréa del Fuego às 09:38 AM
[   ]




...

Fazia tempo que eu não entrava num subsolo. Santiago Nazarian, Cris Lisbôa, César, Luciancencov e eu descemos num. Lá dentro: Multiplex, uma banda neo billy dos sapatos à voz. Depois ela, Karine Alexandrino, de vestido paetê aberto nas costas cor cereja, óculos transparentes e enormes, cabelo anos 30. Cantando, gritando, implorando. Portishead com serotonina, delírio.

Antes, drinks feitos por Santiago que é a Nhá Benta das poções. Um deles você toma subindo o canudinho passando pelos andares de sabor. Na estante da sala um boneco de Edward Mãos de Tesoura, a Barbie dele. Santiago é a cara de Johnny Depp, além de escrever coisas como Olívio. Foda. Ele sorteou um livro dele pra quem falasse o primeiro nome de Picasso, levou quem tinha enzimas resistentes ao álcool.

Cris Lisbôa, autora do delicado Deles e Quase o Resto, veio ao mundo com a mesma risada que a minha; quando ela gargalha eu não preciso abrir a boca, ela ri por mim, ou tape os ouvidos se as duas rirem juntas. Ela jura de pé junto que beringela tem consistência de golfinho.

Depois uma pizza sem vergonha, mas com um drink de carambola. Enquanto isso era o lançamento de Reinaldo Moraes na Mercearia. Dado momento já não sabia pra que lado ficava a Vila Madalena. Voltei roxa sem ter levado porrada. Foi a cor da noite.


Karine Alexandrino


Escrito por Andréa del Fuego às 05:05 PM
[   ]




...

Vá, quem me abandona floresce.


foto: Bill Brandt

Escrito por Andréa del Fuego às 07:11 AM
[   ]




...

Ganhei de Xico Santos, editor da Altana, uma pérola. Um exemplar de "Queda que as Mulheres Têm para os Tolos", organizado por Oséias Silas Ferraz, editora Crisálida.

Trata-se da primeira obra original de Machado de Assis. Original uma pinóia. O safado traduziu o ensaio "De l'amour des femmes pour les sots" de Victor Henaux e publicou-o como seu primeiro livro. Oséias revela os pormenores desta descoberta, e além do ensaio satírico, também nos oferece outros textos de diferentes épocas da carreira do escritor - estes, claro, originais.

Trechos:


Ideal do Crítico

"A tolerância é ainda uma virtude do crítico. A intolerância é cega, e a cegueira é um elemento do erro; o conselho e a moderação podem corrigir e encaminhar as inteligências; mas a intolerância nada produz que tenha as condições de fecundo e duradouro."


Instinto de Nacionalidade

"Nem tudo tinham os antigos, nem tudo têm os modernos; com os haveres de uns e outros é que se enriquece o pecúlio comum. Outra coisa de que eu quizera persuadir a mocidade é que a precipitação não lhe afiança muita vida aos seus escritos. Há um prurido de escrever muito e depressa; tira-se disso glória, e não posso negar que é caminho de aplausos. Há intenção de igualar as criações do espírito com as da matéria, como se elas não fossem neste caso inconciliáveis. Faça muito embora um homem a volta do mundo em oitenta dias; para uma obra prima do espírito são precisos alguns mais."


Elogio da Vaidade

"Não vos deixeis cair na tentação da Modéstia: é a virtude dos pecos. Achareis decerto, algum filósofo, que vos louve, e pode ser algum poeta, que vos cante. Mas, louvaminhas e cantarolas têm a existência e o efeito da flor que a Modéstia elegeu para emblema; cheiram bem, mas morrem depressa."


Teoria do Medalhão

"O verdadeiro medalhão tem outra política. Longe de inventar um Tratado Científico da Criação dos Carneiros, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos. Uma notícia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo."

Escrito por Andréa del Fuego às 12:21 PM
[   ]




...

Desconfie dela quando se abana; são lâminas as hastes do leque.


auto-retrato

Escrito por Andréa del Fuego às 09:35 AM
[   ]




...

Há um diamante do tamanho de um planeta, isso não é prosa com chamego, é sério. Um diamante que orbita. De brilho a deixar Luis Quinze humilhado em sua saletinha de espelhos. Um diamante pesado, tão pesado que pra flutuar distorce o plano.

Espanta-me o sol real, quando ele não passa de um fresnel de lâmpada perecível, cheio de pigarro eletromagnético. Tudo o que acontece lá vemos oito minutos depois. Enquanto tomo banho, a luz que recheia as bolhas de sabão é uma repercussão do passado. O fogo está nu, mas não pra nós. Estamos agora mesmo sobre o fogo e abaixo dele. Orbitamos distante do núcleo onde é possível estar no presente, no momento da primeira rajada. O presente é o sol, só nele. Entre os fogos nossa carne que, não demora, torna-se bacia da chama. Queria ter vindo do fogo em vez da terra, o retorno seria escaldante, o inferno menos frio. Vir do fogo imediato seria vir do presente, e não do efeito que é a terra, oito minutos depois. Nem desembocando no mar, as línguas de um vulcão se apagam, esfriar é outra coisa. Apagar nunca, o homem é uma estrela de carbono. Respire, este ardor é o fogo do céu. Deite-se, esse calor é o fogo do chão. Tanta chama, tanta substância querendo expansão e nela há força porque o mistério é esse: não o tamanho de tudo, mas a função.

Quando os polos se multiplicarem, os bipolares viverão a normalidade. Até lá, a bússola anda indecisa, as sardas aumentam, bloqueador 30.


foto: Ernst Haas

Escrito por Andréa del Fuego às 11:29 AM
[   ]




...

Quando é você a baliza, eu derrubo os cones, morre o motor. Não guio, não estaciono; vou de carona com o primeiro, pra onde for. Preciso do vácuo, sigo quem me faça um.


foto: Lee Miller

Escrito por Andréa del Fuego às 12:44 PM
[   ]




hoje!

A editora Fina Flor lança hoje o livro Resoluções, de Ademir Corrêa e Lidia Paula Sahagoff. O fino trato será na Mercearia São Pedro: rua Rodésia, 34, à partir das 20hs. Já tô lá. Depois tem festa da revista Ácaro no mesmo bairro, no Garagem Hermética: rua Fidalga, 340, até às 2. Então?

Escrito por Andréa del Fuego às 09:44 AM
[   ]




Com a permissão do próprio, publico aqui um conto de José Luís Peixoto, escritor português, autor do delirante Nenhum Olhar, editora Agir. Ele veio de Portugal como um dos convidados da última Flip e deu o recado: "moribundo não está o romance, moribunda é a discussão sobre ele". O conto abaixo foi publicado no tablóide português Jornal de Letras, onde ele assina uma coluna. Ei-lo:


Parati invisível

Kublai Kan escolhe a melhor posição para ouvir. Faz pequenos acertos até sentir o corpo como uma rocha que vê o mundo desde o lugar onde nasceu. As condições ficam completas quando o fim de tarde traz um fundo de serenidade às palavras. Então, Marco Polo experimenta uma palavra, experimenta outra palavra e assiste à suavidade com que o fim de tarde as leva. Marco Polo está preparado para contar. Kublai Kan está preparado para ouvir. Ambos sabem que precisam ainda de um instante de silêncio. Será esse instante que lhes trará a vontade quase irresistível de contar e de ouvir. Aguardam esse instante, sentindo o crescer dessa vontade, como uma comichão de pequenos pensamentos no pensamento. Então, como se atravessasse uma fronteira invisível, a primeira descrição de Marco Polo.

As cidades e os sinais

Poucos poderão entender tão bem como tu, sábio Kublai, o valor que tem o tempo. Da passagem dos minutos depende a felicidade ou a infelicidade das horas. Da passagem dos dias depende o sucesso da vida inteira. Por isso te quero falar de Parati, a cidade onde o tempo é atrasado por ruas de pedras irregulares. Há muito que a população conhece as garras com que o tempo caminha pelas ruas de todas as cidades. Há muitos séculos, era também assim em Parati. Grandes são aqueles que aprendem. Não passaram muitos anos de destruição até que a população começasse a escolher as pedras mais fortes e mais disformes da montanha e começasse a dispô-las por todas as ruas da cidade, utilizando uma lógica única, calculada por equações secretas e variáveis de peso e forma e medida.
Hoje, como desde há muitos séculos, o tempo precisa de parar antes de entrar em Parati. Escolhe com cuidado cada passo porque se correr, como costuma, o mais certo será cair passados poucos metros, derrubado pela forma inesperada de uma pedra demasiado redonda ou de outra pedra demasiado alta. O viajante que chega a Parati surpreende-se com a visão do tempo, caminhando devagar pelas ruas, com passos medidos de bailarina, escolhendo as pedras que pisa.
Em Parati, o tempo envelheceu e perdeu toda a crueldade. As crianças brincam à sua volta. As mulheres dão-lhe o braço e ajudam-no a atravessar a rua. Os mais velhos sentam-se ao lado dele nos bancos da praça.

As cidades e o desejo

Quem chegue sem aviso, acredita durante os primeiros instantes que não são os seus olhos que vêem as imagens que se erguem diante de si, mas que a sua imaginação encontrou maneira de emprestar delírios ao mundo. Na cidade de Parati, cada uma das mil vezes mil vezes mil pessoas que caminham pelas ruas e pelas pontes leva debaixo do braço um livro, onde está contida a história longa, palavra por palavra, do seu desejo.
Homens com barba, mulheres lindas e crianças crianças folheiam páginas para se descobrirem a si próprios, contados por palavras escritas em lugares misteriosos e concretos por mãos misteriosas e concretas. São livros de palavras como espelhos. São livros de palavras como as águas do rio de manhã, quando homens, mulheres e crianças se inclinam sobre o seu reflexo para descobrirem todos os dias o seu rosto.

As cidades e os olhos

Entre a população que enche as praças e as ruas enfeitadas de cores, há homens e mulheres separados. Caminham sobre os olhares e só muito lentamente percebem que Parati é a sua cidade. Chegaram há poucos dias e só muito lentamente perceberam que nasceram sempre ali. Á chegada, nas suas malas, traziam livros e pedaços de paisagem. Procuraram uma pousada entre as casas brancas da cidade e, no quarto, quando os barulhos de Parati entravam apenas pela janela de guilhotina, abriram a mala e viram que estava vazia porque os seus livros e os seus sonhos e as suas memórias tinham chegado antes deles às ruas da cidade e subiam, como fumo, como vapor, para o céu.
Aos poucos, esses homens e essas mulheres separados percebem que fazem parte dos olhares que os vêem. Afinal, não estão separados. Nunca estiveram. E mesmo que tenham de partir de novo, mesmo que tenham de chegar muitas vezes, sabem agora que os seus livros passados e futuros existirão sempre e apenas em Parati. Mesmo que tenham de partir, nunca partirão realmente.

As cidades contínuas

Todos os dias, a maré sobe e avança livre pelas ruas. A água passa pelas pedras como a consciência passa pelos gestos. Quem vive em Parati conhece a maré que se aproxima dos pés como se viesse falar de ternura e de vida.
Todos os dias, as águas trazem uma pele nova e mais limpa à cidade. Ao acordar, na sombra fresca das árvores, no fundo branco das paredes, quem vive em Parati vê uma cidade nova.
Todos os dias, Parati renasce.

As cidades e os nomes

Poderia agora contar-te como existe uma cidade com um rio que tem duas margens. Em Parati, há um rio com pontes sempre cheias de pessoas a passarem para um lado e para o outro. Quem está num lado, pensa que também gostava de estar no outro. Por isso, existem barcos e pontes constantemente atravessadas.
Numa das margens, existem homens e mulheres que têm palavras. À sua frente, centenas de pessoas, como tu, nobre Kublai, sentam-se a ouvir o significado mais profundo dessas palavras. Em cada palavra, mil cidades. Na outra margem, telas reflectem o rosto dos homens e das mulheres que têm palavras, altifalantes repetem as suas palavras e são ainda mais centenas de pessoas que ouvem e que, dentro de si, constroem novas cidades.
É assim que Parati se multiplica pelo infinito. O rio é feito de palavras líquidas que escorreram de uma e de outra margem. Ao atravessá-lo, as pessoas transportam palavras e muitas cidades dentro de si. As duas margens são como dois espelhos a reflectirem-se mutuamente por todo o infinito, através de toda a eternidade.

As cidades e as trocas

Em Parati, as pessoas trocam-se umas pelas outras. Passa uma mulher e troca-se pelo olhar de uma criança que brinca na praça. Passa um homem que encontra outro homem e, quando se separam, saem com o rosto e as palavras um do outro. Passa um homem que se troca por uma mulher que se trocou por uma criança que se trocou por um pedaço de céu que se trocou por palavras e livros que se trocaram por um instante completo e estruturado pelo encontro verdadeiro de um homem que se trocou por uma mulher que se trocou por um homem que se trocou por outro homem e assim sucessivamente.

Diante do trono de Kublai Kan, Marco Polo desprende o silêncio. Nesse mesmo instante, o silêncio enche a sala, toca todos os azulejos.
É um gesto de Grão Kublai que atravessa o silêncio e que estende sobre o seu colo o mapa da cidade que acabou de conhecer. Os seus dedos seguem linhas rectas como estradas, linhas irregulares como rios, pontos como cidades.
E, sem que Kublai lhe tenha feito qualquer pergunta, Marco Polo responde:
- Não, senhor, todos os atlas são inúteis. Não há cartógrafo suficientemente prodigioso que consiga traçar todos os caminhos de uma cidade assim. O mapa mais exacto é a nossa pele. É nessa superfície que temos rios e pontes e ruas de pedras e casas pintadas de branco e rostos e palavras: palavras: palavras que ferem, que apaziguam, que multiplicam.
Kublai Kan levantou o olhar na direcção de Marco Polo e, através do silêncio que regressou, percebeu a memória das suas palavras e encontrou, finalmente, a paz.

José Luís Peixoto

Escrito por Andréa del Fuego às 07:49 AM
[   ]




...

Gosto de retratar, gosto muito. Esta é Bebel de Barros num ensaio feito há alguns meses. Tô que me coço pra fazer mais. De quem será o rosto do próximo retrato?






fotos: Andréa del Fuego

Escrito por Andréa del Fuego às 08:03 AM
[   ]




...

Tô indo te buscar. Não saia antes das seis, porque chego exato às seis. Assim que pisar na faixa te atropelo. Nem anda direito, essa anca estreita que foi minha alça. Vou deformar teu quadril com as rodas, dar ré nas costas. Além do quê, você não tem código genético pra digerir tremoço.


foto: Lee Friedlander

Escrito por Andréa del Fuego às 11:16 PM
[   ]




...

Força ao sopro negro, à voz negra, à luz de New Orleans.


foto: www.subvision.net

Escrito por Andréa del Fuego às 08:43 AM
[   ]




...

Agora sim. Uma nota, maestro.


foto: Ernst Haas

Escrito por Andréa del Fuego às 02:40 PM
[   ]


[ ver mensagens anteriores ]



 
Histórico
  Ver mensagens anteriores


LIVROS


Nego fogo





Engano seu





Nego tudo





Minto enquanto posso





juvenil


Sociedade da Caveira de Cristal





Quase caio





antologias


Os Cem Menores Contos
Brasileiros do Século






Fábulas da Mercearia





30 Mulheres que Estão Fazendo
a Nova Literatura Brasileira






Doze





69/2 Contos Eróticos





35 Segredos para chegar a lugar nenhum





Contos de algibeira





Capitu mandou flores





O Pequeno Príncipe me disse

BLABLAblogue





delfuego@uol.com.br





O que é isto?