Andréa del Fuego


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Há quatro anos fiz um projeto de livro que não foi adiante. Era apenas o embrião do meu primeiro livro, mas eu não sabia disso. Na época aliei imagens com os contos ainda inacabados. Ilustrei cada conto com fotos que eu mesma tirei, me fantasiei com os personagens e me fiz de Carmem, Amanda, Sueli. São lindas.

Enviei para algumas editoras, entre elas a elegante Cosac & Naify. Olhe a ambição. Conheci ali o Rodrigo Lacerda. O projeto não vingou, porque Rodrigo tem bom senso, coisa que eu não tinha. Ontem o escritor Alexandre Barbosa de Souza, que trabalha agora na editora, encontrou esse fóssil do abismo e me devolveu.

A pessoa que se fotografou há quatro anos não sou eu, aquilo está tão longe quanto a última reencarnação. Alexandre pescou isso e foi correndo me devolver o passado dentro de uma sacola. Guardei em lugar seguro, onde há coisas maiores.

Obrigada, Alê.

Como pode quatro anos mudar tanto a visão, a coagulação, a ação?

Tenho uma pista: eu morri em 2003, junto com minhas avós que enterrei no mesmo mês, no mesmo cemitério. Voltei, outra e sem elas, voltei.

A morte me iniciou em outra seara, e é por isso que o erotismo ficou estreito. Só me encaixo na abertura que a grande morte traz. Não choro mais morte pequena.


Escrito por Andréa del Fuego às 11:30 AM
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Hoje!

Frio, né?

Que tal se aquecer na Lima Barreto, livraria boa e aconchegante?
Índigo e eu vamos ler bons contos e bater papo com você e quem mais aparecer; aceitamos cachaça.

Vamos atender hoje, às 19 hs.

Livraria Lima Barreto
Rua Ignácio Pereira da Rocha, 414
Vila Madalena

Escrito por Andréa del Fuego às 07:09 AM
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Despeja na banheira limão e baunilha. Prepara o bidê com sândalo e tomilho. Cada dia um banho; colônia fresca, esparge notas de tangerina e tabaco. Uma gota na nuca pra subir a pressão 6 por 8. Nos pés fragrâncias voláteis, nos ombros as fixas, pra não exalar vento à toa. Faraó deu pros deuses o sacrifício de três mil bois. Cheiro espesso, melando a terra, esponja da egípcia. Menstrua, menina. Basta um pano úmido e quente, os tais das gueixas, com a água que importa: corrente e sulfurosa.


foto: Baron Adolf de Meyer


Escrito por Andréa del Fuego às 06:28 PM
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A Patifaria não pára. Agora você pode ouvir os autores lendo seus contos. Vem, pegue um café e vem escutar.

Escrito por Andréa del Fuego às 06:09 PM
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interpreto

Você que sonhou, lembra dos retalhos e quer o significado, mande-me por email a tua noite. Sendo eu charlatã, leve em consideração apenas o que a coincidência fizer brilhar. Senhora Fogo, aos pés do teu relato.


foto: Ruth Bernhard

Escrito por Andréa del Fuego às 08:37 AM
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Minhas pernas são meu cavalo.


foto: André de Toledo Sader

Escrito por Andréa del Fuego às 12:04 PM
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"... a gente se angustia com o livro que está sendo escrito, não é porque está difícil, ou porque esbarrou num beco sem saída, coisas assim: a gente se angustia é por não saber intimamente o que está fazendo. Perde-se tempo, e há muita coisa de utilidade imediata atualmente, esperando o nosso esforço. Então é preciso descobrir antes o que é o nosso livro. Um protesto? Uma tristeza? Uma vida? Um elefante..."

Fernando Sabino para Clarice Lispector.


foto: Henri Cartier-Bresson

Escrito por Andréa del Fuego às 12:41 PM
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Seca, a velha. Arbusto fino que chora resina, um me arranha, a velha. Coagula, o corte não derrama o que veio pra sangrar. Abaixa o fogo, adia a borbulha pra não perder soluto; não foi até agora, não vai ser mais. Seguro calor pra queimar distante da chama. A colheita modesta é pra forrar o paiol, os grãos não guardo diante da velha, deixo nos silos ao pé do imortal.


foto: Robert Doisneau

Escrito por Andréa del Fuego às 11:08 AM
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hoje!

Tem um mantra que só Marcelino sabe entoar.



Escrito por Andréa del Fuego às 12:15 AM
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www.arteepolitica.com.br

Escrito por Andréa del Fuego às 12:05 PM
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Tenho vontade da menina, que sabe da noite pra só dormir nela. Dia que a papisa voltar tiro a saia rodada. Rodopio no mesmo eixo. Pião de ponta rosa, sapatilha pompom. Aqueço os tendões fazendo borboleta; meus braços, meu arco, atiro a seta. Estou muda que é pra esperar como se deve, no sacerdócio. Te espero sem que você o saiba, como é o túmulo. Amanhã apareço no teu córtex, como agora, na saudade.


foto: Elliott Erwitt

Escrito por Andréa del Fuego às 03:34 PM
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Sou vibrátil nas mãos dos espíritos felizes.


foto: Louis Stettner

Escrito por Andréa del Fuego às 02:59 PM
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Em Parati há um rio entre duas tendas, uma com a reprodução, outra com a carne e o osso.

O português José Luís Peixoto, reproduzido no telão, me jogou esta bóia:
"A mesma história contada por outro, é outra história."

Comemorei com cachaça Gabriela, cachaça castanha pra brindar Fabiana Cozza, o orixá Cozza; trovão iluminando os Negreiros do Marcelino Freire.

O frio me fez dormir mesmo acordada, me aninhei na gargalhada. A água cobriu as ruas tomando seu lugar, tirando o nosso. Nosso lugar é menor que o das águas, que foi lá esfriar o chão.

O veleiro Leo Brava nos levou: Marcelino, Indigo, Adrienne, Luciana Villas-Boas, Clóvis, Heloísa Eterna, o italiano Marcello Fois, o cubano José Latour, entre outros convidados, até a ilha do Algodão. O mar esmeralda, o céu um cobertor branco. José Latour contou de sua Cuba, antes de chorar seu país no palco da Tenda. O italiano se amolecia na caipirinha. Eu botava a brisa dentro do bolso. A Baía da Ilha Grande toda lisa pra gente passar. Depois um jantar no cais, a energia sublime na borda, a mais pesada no bojo da taça onde o vinho se assenta. Três taças se partiram pela noite. Melhor a taça que nossa tíbia.

Crib Tanaka, Mansur, Mariana Newlands, Nelson de Oliveira, Daniela Abade, Ana Ferreira, Márcia Denser, Marcelo Moutinho, Beatriz Bracher, Rodrigo Lacerda, Marçal Aquino, Alexandre Barbosa de Souza, Tati, Delfin, Wladimir Cazé, Marcelo Benvenutti, Tony Monti, Luiz Roberto Guedes, Mônica Oliveira, André Fernandes, Paulo Scott, todos navegando.

Há uma ponte que liga a Parati da reprodução e a Parati da carne e o osso. Nela vejo o rio passar entre as margens, pensando as terras possíveis da vida literária.

Uma delas é essa, sem vergonha do disfarce.


Em sentido horário: Miriam, Porfíria, Andressa e Juvêncio, serenos em Parati 2005. Foto: Alejandra, da Casa de Fotos Atelier.

outra


só mais essa (há piores)

Juvêncio, Miriam e Porfíria riem da sorte; Andressa não se dobra.

Escrito por Andréa del Fuego às 11:36 AM
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Flip


foto: Fred Stein

Escrito por Andréa del Fuego às 06:56 AM
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Pra você que amou, amou até o fim; não essa coisa que se esquece com outro, falo de amor pra foder com tudo, veneno em óleo fervente. Pra você que tem quelóides de fogo, marca sagrada e estúpida. Pra você que amou assim, eu continuo sem piedade nos rins. Filtro um terço do rio, o resto tomba pelo meio das costas, cai na bacia, represo. Vou pra casa do caralho, onde o pau sou eu, alargando a carótida com lança de bronze. Bronzeada. Na beira. No fim.


foto: Robert Doisneau

Escrito por Andréa del Fuego às 07:07 PM
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Trama apertada

Pêlo longo, olhos vermelhos e a fêmea primordial, eu e ela na mesma tapeçaria. Quem pode com isso? Talvez o marido da Tamara de Lempicka. Mas ele morreu, a Tamara morreu, o talco fúnebre jogado no México, dentro do vulcão. Depois dela, ninguém me olhou tanto. Quando vinha sozinha chorava porque eu não existia. Secava a lágrima e ajeitava a casquete. Queria ser eu, um unicórnio de crina sedosa.

Um dia apareceu um estudante vestindo bege. Ficou sentado na minha frente sem me dirigir os olhos. Anotava num caderno qualquer coisa que começava com "chapéu". É isso. Prefere a cabeça coberta, escondendo a hipófise e o hipotálamo. Grande coisa, perfuro qualquer fronte.

Pudesse enrolava o cadáver de Tamara, eu, esse tapete pesado. Mas a quiseram cremada. Toparia arder com ela, ir primeiro sendo a casca, queria contar que o marido cochichou serenata no ouvido de outra aqui no museu. Diria tudo enquanto acendiam a pira. Que saíram sorridentes, que a moça esqueceu o cachecol em cima do banco.

Tamara quando vinha sem ele, vinha só. Não me traía nem com o amante, que ela deixava onde se deve, na alcova sem quadros nem outra distração. Cortina e assoalho é do que ela gosta, o que não quebra não pede acolchoado.

Deitada no meu felpo ia amar com cócega, seguiria o corpo dela e do homem que escolhesse pela sala, iríamos os três pela madeira encerada até que uma parede nos escorasse. Depois ela montava o cavalete e deixava as tintas pingarem.

Estendam-me onde o homem pisa que saio do tear do poeta, me tire da parede, do museu, tire essa gente me anotando. No piso caem gotas de vinho da terceira taça. Cinzas da cigarrilha, polvilho das senhoras, fios de cabelo. Cansei da cor, quero sardas tintas, que caiam os restos vermelhos, sejam eles quaisquer. Da uva ou da veia. Estivesse eu no chão, ela levantava minha ponta e com o pé empurrava o ódio por baixo.

Lá vem a funcionária, apagar a última lâmpada. Sorrio sempre, procuro disfarçar. Sou o unicórnio do tapete medieval. Nas costas, entre meu sizal e a parede há uma carta, Tamara quem deixou. Borrifou água de laranja e no sono do guarda botou o envelope atrás de mim. A carta foi escorregando, agora está sob as patas, onde é lugar de amor assim.




Escrito por Andréa del Fuego às 09:09 AM
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As cordas da voz tomaram sereno, a rouquidão do motor. Sem o cobertor estendido, o varal fica frouxo. Hoje, só mais hoje.


foto: Cornell Capa

Escrito por Andréa del Fuego às 11:52 AM
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