Andréa del Fuego


...

Estreito, alargo, o que faço com isso?


foto: Cornell Capa

Escrito por Andréa del Fuego às 11:43 AM
[   ]




Marcelino Freire

Ele botou o olho em mim, o Marcelino.
Olhe (www.portalliteral.com.br).

Escrito por Andréa del Fuego às 09:42 AM
[   ]




Bernadette Lyra

"Nasci em Conceição da Barra, uma cidadezinha que fica no extremo norte do Espírito Santo, na foz do rio Cricaré. Hoje está quase toda tomada pelo mar. Era um 21 de outubro, fazia vento sul."

Esta é Bernadette Lyra numa breve entrevista, uma frestinha pra você observar a escritora. Leia essa e um conto inédito da grande autora no especial Amores Esdrúxulos, editado por Mara Coradello e Claudinei Vieira. Aqui (www.paralelos.org).

Escrito por Andréa del Fuego às 09:34 AM
[   ]




...

Não seria Cristo a mulher que viu o corpo ressurgir? Não é o escolhido aquele que enfim enxerga?


foto: Jeanloup Sieff

Escrito por Andréa del Fuego às 12:16 PM
[   ]




Escorpião

Bailarinas no salão do palácio.

Jóias do Nilo pelos pulsos, pentes de marfim, espelhos de prata.

Atena tinha braços cortados num ponteado, uma lâmina afiada rasgou fino e fundo. Ela se feriu pra vestir a armadura de Aquiles, roubada de seu navio enquanto ele dormia.

Feita para um guerreiro, a deusa não preenchia o espaço da couraça. Atena aumentou seu próprio tamanho até sentir o ouro encostar na pele machucada. Metal e carne a humanizava, queria ter de Aquiles a potência finita. Potente porque finita.

Liras, mulheres mortais beijavam os pés de Hebe. Afrodite bebia das taças, o manjar era fresca saliva humana. O sol ameaçava aurora e eles ainda se banqueteavam.

Até que Belminda deu pause no videocassete e o mundo voltou a ser o apartamento na Vila Euclides. Desejo de gelatina. Abriu os armários, botou água pra esquentar. Diluiu a areia rosa em solvente morno, enquanto esfriava, foi estender na corda os lençóis que a máquina lavou.

Acabou a festa no Olimpo, a armadura de Aquiles foi deixada na areia, ele não acordou, não viu o roubo de Atena. Os créditos correram até a marca Panavision.

A noite era lilás quando Belminda apagou. Ao acordar ligou a tevê, Clodovil desenhando um vestido, dedicou o croqui para a moça da carta enviada. Belminda telefonou para o número inscrito na tela.

— Seu Clô, telespectadora da Vila Euclides pede para o senhor mandar um beijo, Belminda da Cruz Xavier.

— Um beijo para Belminda que tem o sobrenome do grande Chico. Vamos agora para as previsões dos signos, quem vai dizer não sou eu que não acredito nisso, quem vai dizer é a empregada. Eu sou assim, falo tudo. Não tenho medo de ninguém, nem do prefeito de Ubatuba.

Belminda assistiu cantor, receita de empadão, chá pra osteoporose. Terminou faminta, não tinha escovado os dentes, nem tocou em gelatina. Voltou a fita, o banquete, os deuses, o elixir, Aquiles. Cochilou. Despertou com o telefone.

— Belminda da Cruz Xavier? A produção do Clodovil sorteou seu telefone,
confirme o CPF, a senhora ganhou um lindo barco de veraneio para a sua família. Pode retirá-lo na fábrica em até trinta dias.

Belminda sentou na embarcação. Uma folha de alumínio com motor em lâminas, o barco cuspia óleo na marina. Um empregado da fábrica estava ali pra explicar tudo.

— Tem uma ilha bem perto daqui. Vamos até lá pra você conhecer o presente.

Ele ofereceu um colete salva-vidas e assim vestida desceu com a água pela cintura até pisar na ilhota. Encontrou Aquiles na areia ainda dormindo, teve dó de acordar.



(conto que integra o especial Amores Esdrúxulos do site www.paralelos.org)

Escrito por Andréa del Fuego às 05:32 PM
[   ]




Orelhão

A mulherzinha pegou meu marido e não houve jeito, perdi o homem que me cuidou por anos. Agora veja se não tenho razão. Você não meteria a mão na cara se o visse de conversinha com uma lá toda assanhada? Claro que meteria, nem precisa responder. Não fiz isso. Bati nada. Peguei o menorzinho e fui ver minha irmã internada na Santa Casa. Essa tem carne ruim pra sarar, operou de pedras e nada de cicatrizar a cirurgia. Sim, está tomando a medicação, mas e a cara dela? Toda torta, parece que a anestesia deu problema. Olha, vou te dizer, se não é o Adão me arrumar outra, eu ficava só por conta da Odete. Ia cuidar dela todos os dias no hospital. Mas com essa tenho que ir na Dona Cida toda noite fazer o banho de erva. Ela prometeu que no nono dia ele larga da miserável. Tenho falta dele dentro de casa não, tenho falta dele fora. Gostava de ter saudade. Homem dentro de casa dá trabalho, ocupa o lugar das crianças. Passa lá em casa mais tarde. Já te devolvo o alicate de unha e o negócio de inalação do menino. Hoje ainda faço mais uma nele antes de você levar. Sabe se com arruda ajuda abrir os brônquios? Deve ajudar, se abre os caminhos da gente por que não vai abrir o pulmão do menino?

(conto do livro Minto enquanto posso)


foto: Henri Cartier-Bresson

Escrito por Andréa del Fuego às 07:16 PM
[   ]




Germina Literatura é uma revista com um índice imenso de autores, cada um com uma página exclusiva. Silvana Guimarães e Lucia Farias comandam. Ganhei um cômodo, que mobiliei com dois contos inéditos.

http://www.germinaliteratura.com.br/adelfuego.htm

Escrito por Andréa del Fuego às 12:36 AM
[   ]




...

Boto ela em caixa úmida pra ver se dá fungo. Assim acabo com isso, talho outra boneca, dobradiça azeitada, outra. Espeto agulha na barriga macia, e nada. Cabelo de lã pra cupim fazer a sesta, ela roída por dentro. Afio a lâmina e retalho outro pano, pedaço de cortina, manchas solares. Cobrir com grossura a cerejeira dela.


foto: Ruth Bernhard

Escrito por Andréa del Fuego às 01:23 PM
[   ]




hoje!

Quer ter uma sublime tarde de sábado?

Hoje, na Casa das Rosas, às 17h, Ivana Arruda Leite lê seus contos; alguns de um autor clássico, Lygia Fagundes Telles; e convida um novo autor pra ler sua prosa, eu.

Ambiente familiar, cadeiras confortáveis e os contos impressos pra acompanhar a leitura e levar pra casa depois. É a Patifaria na Paulista de Claudinei Vieira e Eliana Pougy.

Até lá!

Escrito por Andréa del Fuego às 08:34 AM
[   ]




...

Há mais de um ano, Valentina Eva foi seguida por mim e meu marido, o fotógrafo André de Toledo Sader. Encomenda pra Vogue RG. Valentina é modelo russa, boneca dentro de outra. Eva estava atrasada para os desfiles da São Paulo Fashion Week e fomos então de helicóptero, idéia do marido dela. Eu nunca tinha andando num inseto, minha pressão caiu lá de cima. Valentina abriu a janela preu respirar, vomitei com dignidade numa flanela âmbar. Depois, no hotel, ela ofereceu água e morango pra minha cor voltar. Valentina fechava as malas pra Tokyo, eu ainda rodopiava; desci antes que o quarto decolasse.


foto: André de Toledo Sader

Escrito por Andréa del Fuego às 12:37 PM
[   ]




caramelo catalão

Josep Domènech Ponsatí traduziu "Caramelo", conto de meu livro "Minto enquanto posso". É dele a tradução e o esmero ao lidar com "Falo de mulher" de Ivana Arruda Leite. Ele me encontrou neste blog, graças à Ivana, que terêtetê fala meu nome no Doidivana. Josep e Ivana, aceitem este Klimt em agradecimento.



Segue pedaço de "Caramelo, com a respiração vigorosa do catalão:

Veure’l entre les cuixes va engegar a parir panteres la resta de melindros. Adonant-se de la suavitat de l’encant, l’home la va empastifar amb el nèctar, semen cabalós, calent i viu. Ell tenia la lluïssor daurada de sol, mel, de moneda trobada en veles pirates en el fons del mar. Ell l’havia col·locat en una illa sense vistes al continent.
Ella ho va voler i ho va tenir.

O mesmo pedaço:

Vê-lo entre as coxas tirou do eixo o resto de frescura. Percebendo a maciez do encanto, o homem a lambuzou com o néctar, sêmen caudaloso, quente e vivo. Ele tinha o brilho dourado de sol, mel, de moeda encontrada em velas piratas ao fundo do mar. Ele a colocou numa ilha sem vista para o continente.
Ela quis e teve.

Escrito por Andréa del Fuego às 12:44 PM
[   ]




com a corda do poço
fiz o cadarço dos pés




Escrito por Andréa del Fuego às 08:34 AM
[   ]




...

Patifaria na Paulista é um projeto tocado por Eliana Pougy e Claudinei Vieira. Realizado na Casa das Rosas, mansão que recebe prosa e boas idéias. Autores convidados lêem seus textos, um clássico e um novo autor em que ele aposta as fichas. Marcelino leu Graciliano Ramos e apostou em Adrienne Myrtes, que leu, cantou e sapateou.

Eliana Pougy registrou:

o palco: Adrienne Myrtes e Marcelino Freire


a diretoria: Frederico Barbosa, Claudinei Vieira, Eliana Pougy, Marcelino e Adrienne


a platéia: Ivana Arruda Leite, eu, Rogério Augusto e Maria José Silveira

Serviço:
Dia 18/06 Ivana Arruda Leite
Dia 25/06 Nelson de Oliveira

Sábados, às 17h
40 vagas - entrada franca
Inscrições na recepcão da Casa das Rosas, das 10h às 18h
Telefone: 3285 6986

Escrito por Andréa del Fuego às 04:22 PM
[   ]




...

Acabei de ler Madame Bovary, Gustave Flaubert.

Emma é caricata, o realismo está nisso, a burguesia é caricata. O autor, especulado sobre quem é Emma, disse: "Madame Bovary sou eu". Se Emma fosse Nelson Rodrigues, ela teria no mínimo jogado fora as cartas. Dado a loucura ao invés de receber. A Emma de Flaubert dá agonia, seu campo de ação não mede um metro. Emma é uma infantilóide de trinta anos, miséria de alma.

Machado de Assis, esse sim, botou sandálias de Lampião em sua Emma; pegadas de sola quadrada pra cabra não saber se Capitu está indo ou voltando.

Escrito por Andréa del Fuego às 03:05 PM
[   ]




...

Num sistema de dois sóis, o coração do homem bomba sêmen, na teia de vasos corre o leite masculino, e quando goza, fecunda a rainha com clorofila. Mulher menstrua destilado de maçã. As praias são de grãos preciosos, areia de esmeralda. Não há números nas casas, não há carteiro. Os pulmões são visíveis a olho nu, uma calêndula que incha e desincha. Os rins tem pétalas, as cem raras pétalas da rosa oriental. Pulverizam com veneno plantações de menino, pra matar joaninhas, praga da fase adulta do menino. Joaninhas comem sua carne assim que a espiga se abre. Do que sobra da colheita, faz-se geléia temperada com alcaçuz. O primeiro que se serve dela tem autorização para um telefonema, é quando aqui nós atendemos a campainha.

Escrito por Andréa del Fuego às 09:12 AM
[   ]




...

Evapora, escorre ou corta; depende do demônio solar.



foto: Fred Stein

Escrito por Andréa del Fuego às 11:03 AM
[   ]




...

Nenhuma ida é fuga, já que o mar é crespo e perturba a rota. Vou à pé. Odeio velocidade, ela só transporta o vento, faz dos cílios cortina pra peneirar luz, bota o olho atrás das grades. Sabe onde fica essa rua?


foto: Helen Levitt

Escrito por Andréa del Fuego às 08:38 AM
[   ]




"Não é bom tocar nos ídolos; o dourado pode sair nas nossas mãos" - Gustave Flaubert


foto: Lee Miller

Escrito por Andréa del Fuego às 07:53 AM
[   ]




Entrevista na Radio France Internationale, na beira do Sena, Paris.
Repare no "Cem Menores" perto da entrevistadora.



foto: André de Toledo Sader

Escrito por Andréa del Fuego às 11:35 AM
[   ]




...

Pela respiração se pode saber. Perceba o peito e veja se o ar entra fundo, se as correntes afrouxam. O ameno faz voar o balão. Lá fora, o ônibus passa. Aqui, cama quente, vinho pra abrir, a planta espera a borrifada. A gente se recolhe ao mais íntimo, onde é estreito pra mais alguém.



foto:Cornell Capa


Escrito por Andréa del Fuego às 08:35 AM
[   ]


[ ver mensagens anteriores ]



 
Histórico
  Ver mensagens anteriores


LIVROS


Nego fogo





Engano seu





Nego tudo





Minto enquanto posso





juvenil


Sociedade da Caveira de Cristal





Quase caio





antologias


Os Cem Menores Contos
Brasileiros do Século






Fábulas da Mercearia





30 Mulheres que Estão Fazendo
a Nova Literatura Brasileira






Doze





69/2 Contos Eróticos





35 Segredos para chegar a lugar nenhum





Contos de algibeira





Capitu mandou flores





O Pequeno Príncipe me disse

BLABLAblogue





delfuego@uol.com.br





O que é isto?